Porque sempre chove, de uma forma ou outra, em qualquer lugar e a qualquer hora.
Acontece que chuvas deixam marcas, lembranças, resquícios, sinais... elas não simplesmente vão embora, sempre restam, sempre lembram as pessoas de que estão ali. E, se evaporam, viram nuvem pra chover de novo; é um ciclo vicioso, viciante. Incontrolável.
Não posso controlar a chuva, só posso especular quando ela cairá pra tentar fugir das gotas. Mas elas me afetam de qualquer forma, é inútil tentar escapar da água quando ela quer te atingir.
Mas às vezes a chuva simplesmente chove sem anúncio prévio, sem me dar tempo suficiente para pensar nas minhas atitudes, o que fazer, como me proteger. E me molho, me encharco, chove um rio dentro de mim e seu curso é incerto, é imprevisível, só consigo sentir o fluxo abrindo passagem por veias e vasos, encharcando e esvaziando meu coração, tentando, ao máximo, me controlar em cada movimento.
Como uma ação involuntária, o coração esquenta, a chuva evapora, sobe à cabeça, enevoa meu cérebro, deixa minha razão turva. Coração quente, mente fria; dicotomia humana. Pensar ficar difícil, é preciso liberar a chuva, que, rebelde, se externaliza como a mais bruta das cachoeiras.
E seu curso continua incerto: onde ela cairá? Sobre quem? Qual próxima mente ficará enevoada? Aonde a bruma irá? Quando voltará? Voltará? Por quê? Por quem?
Chuvas só me trazem perguntas; chuvas só me trazem tornados.
Não gosto de chuvas, não gosto de fazer cair a Babel que eu levo por dentro.
"Me dá a mão, me leva embora,
Passou da hora, já bebi demais (...)
Deixar de te amar não é pra mim,
Não se deixa de amar assim (...)
Não se desama dando um mero tchau."
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21 de nov. de 2011
14 de out. de 2011
"É que eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano."
Eu olho pra você e tudo a que consigo olhar é uma pessoa, daquelas com olhos, nariz, coração e boca. E um fígado para os finais de semana. Eu olho pra você e te vejo um vestido lindo, cujos seios acolhem muito bem este bojo decotado e cujas pernas balançam incansavelmente este silk primavera incrível que lhe adorna o corpo. Eu olho pra você e é como se o verão inteiro me atacasse de uma só vez.
Então eu te vejo. Te vejo esses olhos da cor da noite, esse corpo banhado à lua, essa pele trabalhada no carinho. Seu cabelo ao vento ondula o ar como o mar de ressaca se banha na areia. Seu andar a 12cm do chão te faz tão leve que flutua sobre todas as musas do Hélicon numa beleza de gestos irremediavelmente fantástica. O Éden é sua passarela, mas pra você não passa de um caminho.
Incontrolavemente te observo. O jeito que fala parece uma epopeia amorosa, uma lírica declarada, uma poesia guardada num pote de ouro. Seu sorriso trouxe o fim a Troia; seu choro ergueu os jardins da Babilônia. Deus é seu amante secreto e consertaria pessoalmente a Babel se você nisso apenas pensasse. E que jeito mais alegre... dança como se ninguém a estivesse notando. Nem Fred Astaire se atreveria a tanto. O Theatro Municipal mais lhe parece uma boite; a leveza com que dança faz de sua sandália de verniz uma sapatilha de cristal - e, princesa que é, não cai do salto nem o deixa escapar. Ninguém de seu reino de rosas seria capaz de levá-lo de volta à Vossa Alteza.
Assumo, te enxergo, e não vejo nada além de um anjo de abraço largo e coração valente, que luta por justiça e comemora cada vitória. Nada me tira da cabeça que pode ter sido diplomata em Alexandria ou advogada na Grécia. É forte, determinada - quem sabe mãe de I-Juca Pirana ou então Joana? A julgar pelo cuidado com que laça esses lindos cachinhos, poderia apelidá-la Chiquinha Gonzaga, mas o amor que emana desses olhos profundos não deixa dúvidas: é você, nem Marquesa de Santos conseguiria tal proeza. Eu te enxergo, mas são tantas particularidades, tantas semelhanças, que me perco em você sem querer me achar. É concubina, clero, rainha, plebeia, duquesa, pirata e bailarina; é Carolina, Cleópatra, Dulcineia, Khadija, Helena e Phryne; é mãe, mulher, amante, doce e brincalhona... é linda. E é una.
Olho, vejo, observo, enxergo e me afasto. Seu vestido é mais bonito quando cai o pôr-do-sol. Seria um sacrilégio não emoldurá-la em minha mente todos os dias, neste mesmo lugar, com céus de cores tão diversificadas, e tê-la pela beleza do ver e sutileza do admirar. Você é tão linda, tenho medo de falar que... mas não posso te prender. Um dia esse mesmo amor laranja e vermelho (que oscila do púrpura ao fúcsia) vai emoldurá-la por si só e te fazer brilhar, linda Vênus, trilhando o meu caminho rumo ao seu no natural caminhar das horas.
Mas não me espere - demoro. Abro mão do meu desejo para tê-la em arte.
http://fc05.deviantart.net/fs29/i/2008/064/7/8/Be_My_Wonderful__by_SM_Photography.jpg
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7 de out. de 2011
"Tira essa lama das botas"
"Eu, Fulano(a), 20 anos, acabado(a) e depressivo(a)."
Parafraseando um livro muito famoso que retrata a biografia de uma prostituta aos 13 anos, tenho presenciado muito a frase acima. Uma lástima.
Não sei o que está acontecendo com a sociedade, mas a depressão tem sido uma doença tão corriqueira quanto gripe, mas seus sinais nem sempre são perceptíveis a olho nu. Só ao meu redor eu já vi 1 caso de depressão que foi superado (sem ajuda de remédios) e outros 3 em andamento, sendo que um deles está bem avançado e os outros dois estão no início. A pessoa que saiu da depressão tem 32 anos, uma vida estável, poucas apurrinhações (assim como todo mundo) e um emocional declaradamente abalado, repleto de espaços que se esvaziaram com o tempo durante uma relação cheia só por um. As outras 3 pessoas têm menos de 25 anos e nenhum motivo realmente importante para terem desenvolvido depressão: todas passaram para boas faculdades, estão em perfeito domínio de suas capacidades mentais, a ponto de compreenderem seu estado atual, possuem famílias equilibradas, base emocional bem tranquila por conta do apoio familiar... então, por quê? Por que são diagnosticadas com depressão? E o que está acontecendo com elas?
O que vejo de igual nos 3 perfis que tenho ao meu redor é o computador. Todos eles passam o dia no computador, não têm vontade de fazer nada (ou têm e não têm animo de fazer), só comem e bebem porque é necessário. Tudo que lhes era prazeroso agora lhes parece um fardo e a vida vai tomando formas que antes não precisaria. É normal que todos troquem o dia pela noite, virem vampiros cibernéticos à procura do quanto de prazer aquela máquina pode lhes proporcionar - é um prazer momentâneo, não vai durar pra sempre nem curar a depressão, mas eles só precisam disso mesmo, de uma atenção momentânea a todo momento, um pouco de carinho a cada vez que precisam lembrar-se de quem são, e o computador sempre tem algo de interessante pra ser curtido no Facebook, um vídeo engraçado no Youtube, uma pesquisa maneira no Google e sempre alguém pra se ter uma conversa doida em algum jogo on-line ou no MSN.
Seria, então, culpa do avanço tecnológico? A vida cibernética pode estar distorcendo o real e o virtual e fazendo as pessoas acharem que a depressão é apenas virtual e que o mundo real vem de dentro pra fora da máquina?
Não acredito. Prefiro a tese de que a depressão está se tornando cada vez mais comum nos grandes centros à medida que os jovens estão sendo cobrados cada vez mais como adultos. Aos 18 precisamos ter nossa vida claramente decidida, aos 20 precisamos minimamente de um estágio. Aos 25 temos que estar trabalhando. Depois, podemos fazer o que quisermos, mas sabemos que não é bem assim. Mercado de trabalho é algo cruel, nos obriga sempre a diversas coisas, muitas vezes precisamos largar os estudos em troca de um pão com manteiga à noite por não ter um miojo para comer em casa. E é claro que isso influencia quem recém saiu de uma fase conturbada que é a adolescência, quem recém descobriu qual caminho seguir, qual não seguir, quem ser, quem não ser, o que pode dar certo, quanto tempo ainda resta pra ser perdido... é uma cobrança infundada para quem sequer descobriu por quê o céu é azul.
Os grandes centros estão cada vez mais abarrotados de gente, é impraticável conhecer todas as pessoas a fundo, então é necessário um modelo de vida. É preciso que todos vivam de forma parecida pra que as necessidades da vida urbana se adaptem às pessoas. Mas, na verdade, deveria ser o oposto: as pessoas é que deveriam adaptar-se ou não. Se é a vida urbana que precisa se adaptar à pessoa, o que acontece se isso não acontecer? A vida urbana exclui essa pessoa e ela precisa recorrer a alguma outra forma de vida para suprir aquela necessidade de entrosamento social e sentir-se alguém no meio de tantos, sentir-se notado e notável entre tantas dezenas de rostinhos perdidos na multidão da 25 de Março (SP), Praça da Liberdade (MG), Praça XV (RJ), Parque Farroupilha (RS), Pelourinho (BA), 5ª Avenida (EUA), Campos Elísios (FRA) e tantos outros grandes centros desenvolvedores de cibernéticos viciados no mundo "real." Aliás, qual dos dois muntos era virtual, mesmo?
Fico muitíssimo triste de ver tantas pessoas queridas recorrendo a tarjas pretas para tentar suprir uma necessidade que a cidade requer. Fico mais triste ainda de saber que existe quem perceba que tem depressão e não lute contra isso. Tenha força, você SÓ tem 25 anos ou menos, é um quarto de sua existência e tudo o que você fez até agora foi comer, dormir e jogar no seu Windows Home Edition com um HD estratosférico, uma memória RAM invejável, só jogão foda rodando em rede e um char que é conhecido por todos que estão on-line naquele momento com você, nesta madrugada fria, em que você queria mesmo era estar dormindo pra, no dia seguinte, acordar bem disposto pra fazer tudo o que você sempre quis fazer mas não faz por estar jogando nesse seu computador super foda, com gente super legal, que não quer fazer mais nada além de jogar. E ouvir música. E twittar. E ler blogs, especialmente de quem vos desabafa agora.
Sou da Letras, com orgulho total em assumir isso (antes que me perguntem), não possuo conhecimentos técnicos pra comentar o que vou comentar agora, mas gostaria de fazer um apelo à galera das Ciências da Computação ou para quem possa trabalhar nesta área: se o computador serve tão bem ao trabalho e entretenimento, por que não criar um software, um jogo, alguma coisa que rode em qualquer computador, e que possa ajudar a pessoa quanto à depressão? Talvez um jogo que surta o efeito inverso do que os demais jogos: em vez do jogo prender sua atenção na máquina, por que não um jogo filosófico? Que faça o jogador pensar, refletir, questionar-se, encontrar-se, entender-se?
Seria a máquina tendo, novamente, sua característica inicial: ajudar o homem.
Seria o homem tendo, novamente, sua característica inicial: domínio do mundo e de tudo o que lhe cerca.
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21 de set. de 2011
"O que se leva da vida é a vida que se leva"
A vida em república e o contato com outros republicanos me fez perceber três tipos diferentes de pessoas: os acomodados, os exploradores e os lutadores. E quase toda república tem, pelo menos, um exemplar de cada.

O acomodado é aquele cara que passa a graduação inteira recebendo dinheiro dos pais. Ele pode até pensar em fazer iniciação científica, ser monitor de qualquer coisa, mas é pura modinha. 'Tá quase sempre dando a maior atenção a outras coisas fora da Academia (como musculação, spinning...) e geralmente tem um carro ou moto, cujos gastos e despesas são pagos pelos pais.
O explorador é um meio-termo: ele tem interesses acadêmicos, acha interessante conseguir bolsas de pesquisa e corre atrás disso, mas continua contando com papai e mamãe. Geralmente é o cara que vai juntando a bolsa da pesquisa com o que ganha dos pais, tem gastos com livros, xeroxes, etc, mas, às vezes, também extrapola nas saideiras.
O lutador pode ser de dois tipos: ou a família dele o ajuda de alguma forma, mas ele continua lutando pra se manter sozinho (e, quando consegue isso, dispensa a família) ou desde o início ele precisa se sustentar. Corre atrás de bolsa, auxílio, empentelha o professor, mas acaba sendo um dos mais aplicados do curso porque precisa correr atrás do prejuízo por trabalhar demais.
Seja qual for a opção que o cara "escolha" seguir (escolha entre aspas porque, no caso do lutador, ele nem sempre escolhe isso), tudo tem seu lado bom. O acomodado tem o que quer na hora que escolher; o explorador geralmente ri de seus feitos (nada heroicos) e tira sarro da situação; e o lutador tem a vantagem de ver, em tempo real, a aplicabilidade de seus estudos.
Mas não estou aqui pra igualar nenhum destes grupos (que são moldes de sociedade). A vida não iguala. Ela não vê motivo pra isso. Seu chefe não vai te igualar ao estagiário, a menos que queira tua demissão. Sua mãe não vai te igualar ao teu irmão, exceto para provar que existe preferência.
Eu não acho: eu tenho certeza de que, na vida, a melhor coisa é se foder. Entrar no cheque especial, de preferência do banco com juros mais alto, pagar o mínimo do cartão de crédito, passar o domingo comendo miojo e, no resto da semana, arroz, feijão e ovo. É pegar horas de engarrafamento pra ir e voltar, ter meia hora pro almoço, passar até um pouquinho de fome de vez em quando para se lembrar de economizar. Se foder na vida é faltar ao trabalho pra se matar de estudar (a matéria que não caiu na prova e tomar bomba naquilo que, realmente, não vai fazer a menor diferença na sua vida) e perder prova porque precisava trabalhar e ninguém poderia te substituir - porque insubstituível é quem se faz assim, e demanda esforço, cansaço, exaustão.
Se foder sozinho é a melhor coisa que existe. Se foder com alguém é prazeroso, agrega mais prazer, mas se foder na vida agrega conhecimento e maturidade, indispensáveis pra vida de quem quer ser adulto na vida. Com toda a retórica da redundância.
Com todo o perdão da ambiguidade, um grande foda-se a todos os acomodados e exploradores!
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