22 de mar. de 2012

"Debaixo dos caracois dos seus cabelos, um soluço e a vontade de ficar mais um instante"

(foto retirada de meu arquivo pessoal)

Quando a mulher fala "vou mudar o cabelo", ela não está apenas querendo sentir o cheiro da amônia, prancha e secador. Ela não está apenas querendo ir ao salão pra fofocar com o amigo cabeleireiro suas frustrações, raivas e desesperos enquanto ele aniquila e destroi cada fio, numa metáfora externa daquilo que se passa dentro do coração da mulher. Não... vai muito mais além.

O cabelo da mulher é a forma dela expressar seus sentimentos. Se está feliz, ele está solto; se está triste, possivelmente estará preso ou então arrumado de qualquer jeito, mas para trás; se está nervosa, ele não para quieto em meio a seus dedos; se está arrasada, ele se molha junto com suas lágrimas – não para ser solidário, mas para tentar esconder a maquiagem borrada pela tristeza. O melhor amigo do homem é o cabelo feminino, porque ele, sim, entende a mulher mais do que ela própria e traduz às demais pessoas os sentimentos que ela própria, muitas vezes, faz questão de esconder (por medo, angústia ou apenas para não perder ainda mais a cabeça).

Quando a mulher fala “vou ao cabeleireiro” ela não quer que ele simplesmente corte as pontas ou dê um up na tintura. Ela quer que ele a faça sentir diferente, renovada. A tesoura, a química e todo aquele cheiro típico de salão de beleza fazem a mulher se esconder em um mundo fictício onde tudo é elogio, onde não há passado inglório nem borrões na maquiagem, onde a felicidade é um espelho no qual ela se sente bem não pelo seu peso, sua roupa ou seu rosto, mas sim por aquilo que aparenta ser: algo que não é.

Parece ilógico, incoerente, mas a mulher PRECISA ser o que não é para fingir que não aconteceu aquilo que ela precisa esquecer. Não que ela precise esquecer porque foi ruim: na maioria das vezes, se ela muda o cabelo para que o espelho, espelho dela diga que não existe ninguém mais linda do que ela, possivelmente aquele passado foi excelente, sempre trará memórias incríveis e a sensação de que aquele presente foi a pior escolha ou acontecimento da vida dela, simplesmente pelo fato de ela não poder mais estar no passado e viver tudo aquilo de novo.

Má notícia pros homens é quando a mulher está arrasada e nem pensa em mudar o visual, nem que seja pra pintar só as pontinhas de loiro ou tacar um preto azulado nele inteiro, em tom de luto. Uma mulher de luto real precisa mudar algo que lhe seja muito caro em sua essência para, como uma fênix, renascer daquilo que a matou. E não há nada mais importante para uma mulher do que seus cabelos, bem cuidados e saudáveis, pelos quais dançam as mãos masculinas num desespero amoroso de se perder em seu mundo e tentar entendê-las, essas mulheres, mas sem se darem conta de que os olhos de uma mulher, por mais desmontáveis que sejam, nunca serão tão expressivos quanto seus cabelos.

E fica aqui uma dica: se uma mulher não lhe diz aquilo que deseja ouvir dela, se ela não sabe qual atitude tomar, provavelmente ela ainda não pintou, descoloriu, alisou, cacheou ou cortou seu cabelo. Enquanto você pergunta a ela o que ela quer da vida, a mulher não espera que você entenda o motivo dela não te olhar nos olhos e passar tantas vezes a mão pelo couro cabeludo. É um adiantamento retórico o fato dela própria alisar os fios com as mãos. É uma fuga de si, do momento, uma tentativa de ver no pôr-do-sol uma resposta óbvia, que ela obviamente não tem ou prefere apenas não dizer, porque naquele momento, naquele cabelo, ela não está se sentindo confiante. A mulher é aquilo que ela aparenta ser, e não que ela não seja aquilo, mas é apenas o que ela permite mostrar aos olhos dos outros: a perfeição do Olimpo, a formosura de Vênus, a ira dos deuses, a queda da Bastilha, a ruína de Tróia... os cabelos de uma mulher mostram sua real intenção, ainda que os lábios mintam o que os olhos dizem só pela metade.



PS.: mudando de assunto... o que vocês acham? Progressiva ou baby liss?

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27 de fev. de 2012

"Mas não se esqueçam da rosa, a rosa de Hiroshima (...) sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada"

"E quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.

- Adeus - disse ele à flor. Mas a flor não respondeu.
- Adeus - repetiu ele.

A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.

- Eu fui uma tola - disse, por fim. - Peço-te perdão. Trata de ser feliz.

A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.

- É claro que eu te amo - disse-lhe a flor - Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
- Mas o vento...
- Não estou assim tão resfriada... o ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem irá visitar-me? Tu estarás longe... quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.

E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos.

- Não demores assim que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!

Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...


* * *


O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante....

- Bom dia - disse o príncipe.
- Bom dia - disse a flor.
- Onde estão os homens? - Perguntou ele educadamente.

A flor, um dia, vira passar uma caravana:
- Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.
-Adeus - disse o principezinho.
-Adeus - disse a flor.

O pequeno príncipe escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que batiam no joelho. O vulcão extinto servia-lhe de tamborete. "De uma montanha tão alta como esta", pensava ele, "verei todo o planeta e todos os homens..." Mas só viu pedras pontudas, como agulhas.

- Bom dia! - disse ele ao léu.
- Bom dia... bom dia... bom dia... - respondeu o eco.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho.
- Quem és tu... quem és tu... quem és tu... - respondeu o eco.
- Sejam meus amigos, eu estou só... - disse ele.
- Estou só... estou só... estou só... - respondeu o eco.

"Que planeta engraçado!", pensou então. "É completamente seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz... No meu planeta eu tinha uma flor; e era sempre ela que falava primeiro." Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens.

- Bom dia! - disse ele. Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia! - disseram as rosas. Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? - perguntou ele espantado.
- Somos as rosas - responderam elas.
- Ah! - exclamou o principezinho...

E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ela era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim! (...)

E, deitado na relva, ele chorou. E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, olhando à sua volta. Nada viu.
- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira.
- Quem és tu? - Perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho. Mas, após refletir, acrescentou: - Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui - disse a raposa. - Que procuras?
- Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
- Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços."
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo..."


(Antoine de Saint-Exupéry)



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