4 de jun. de 2012

"Será que temos este tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara..."

Quando meu pai morreu eu não senti muito sua ausência. Não vinha sendo a melhor das filhas havia algum tempo, não entendia direito a gravidade do que estava realmente acontecendo com ele nem a fragilidade emocional de uma pessoa de 70 anos que transitava da cama pro banheiro, do banheiro pra cama, e de vez em quando pro hospital. Fui muito insensível e me distanciei dele por opção, por uma babaquice adolescente, mas também me distanciei porque sabia que ele talvez não ficasse com nossa família por muito tempo, quis amenizar um pouco a dor da perda, e sua morte, então, não fez tão mal pra mim quanto ver minha mãe irremediavelmente abatida com sua partida - na verdade, as lágrimas dela à noite me tiravam muito mais o sono e a alegria do que qualquer boa lembrança que eu tinha dele e que havia sido cortada pelo tempo malvado que cita Horácio.

Mas então meu avô morreu, e aí meu mundo caiu. Eu comecei a pensar o que seria da vida sem ele, por que ele havia partido de maneira tão inesperada, e me senti extremamente culpada por sua partida - no dia anterior, no CTI de um hospital referência em Petrópolis, eu havia dito a ele que no dia seguinte sairia daquela cama. Eu só não sabia que seu destino seria o Cemitério São João Batista.

Desde então, a morte e sua figura estão, de certa forma, presentes no meu cotidiano com mais frequência (já estavam antes, de maneira não tão mundana, mas não é assunto para este post). Não é algo que eu pense sempre, mas é algo que me ocorre de formas variadas, com sentimentos diversos. É um tabu da sociedade, há muitos mitos sobre o destino daqueles que partem, há muitas crenças que tentam explicar o paradeiro daqueles que amamos e que se livram das doenças e armadilhas deste mundo. E também há muito medo de morrer. Num discurso de Steve Jobs, ele disse que mesmo aqueles que seguem à risca os preceitos religiosos para irem pro céu não querem morrer pra chegarem lá.

Mas alguém já se perguntou o que é morrer? Eu me pergunto constantemente.
Há quem diga que é libertação de uma realidade que faz mal a alguém. Então, como explicar quando uma pessoa com uma vida tranquila e sem reclamações, sem doenças, sem preocupações, morre em um acidente violento? Há quem diga que é uma vontade, desejada com toda a força. Mas e quando um câncer se alastra em quem mais tem sede de viver e não deixa opções de recuperação? Há quem diga que é a vontade de deus. Mas por que ele quereria matar alguém assim, sem motivo?

Em alguns casos, acredito que seja vontade da pessoa. Meu pai, por exemplo, cuja vida estava muito ruim, a ponto dele mesmo começar a abstrair dela aos poucos. Nos casos de internação que não beirem uma vida desgracenta, prefiro acreditar em erro médico. Nos demais, a roda de Samsara é minha última crença possível, além do mundo dos homens e da vontade do espírito, mas que ainda não me diz o motivo de tanta dor, tanto caos, tantas lágrimas.

E ao mesmo tempo que me vem uma tristeza muito grande, uma dor incomensurável ao lembrar que todos morrerão e que não há nada que se possa fazer pra evitar isso (ainda bem; acho que eu não aguentaria ver todos os que me são queridos morrendo um a um enquanto eu fico revivendo-os apenas nos bons momentos do passado), também me ocorre uma pergunta: como é morrer? Doi? Paralisa? O que se sente ao morrer? O que tem do outro lado? Qual é a sensação de morrer nas mais variadas formas de morte: acidente violento, morte premeditada, coma, estado vegetativo?...

Às vezes penso comigo: "quero saber como é morrer." E, não sei direito como explicar toda a minha falta de sentimento em apenas uma frase, mas eu me sinto abstraída de qualquer sentimento com isso. Parece que minha alma fica mais leve, a mente mais longe, me pergunto como seria sentir-se livre desse corpo e tudo o que me vem à pele é vapor (de amor, de desejos, de tristezas). Também me vem uma voz sem som ecoando na cabeça dizendo "motivo errado" e uma onda de imagens de pessoas chorando compulsivamente, a sensação de uma vida jogada fora (sem marcas bem definidas de alguma ação que possa ser lembrada, ainda que por quase ninguém, mas que sirva de exemplo de bem pra quem me conhecer), muita tristeza, muito sangue derramado...

Ando pensando muito em morte, em suas características e sintomas, mas também ando tendo muito medo de morrer e deixar todos que amo desamparados, todos que dependem de mim sem uma conclusão de tudo a que me propus fazer, e, principalmente, sem dizer as coisas certas às pessoas certas por receio de suas atitudes ou vergonha. Acredito que isso passe na mente de todos em algum momento da vida, mas estou com 21 anos e minha relação com isso anda crescendo bastante. É comum causar algum espanto, não?

Entretanto, penso que eu não fiz acordo nenhum com qualquer shinigami¹, não tenho o poder de ver quando os outros vão me deixar e nem sempre poderei me preparar para suas partidas. Um amigo muito querido e próximo sempre me diz pra nunca prometer o que não se pode cumprir, e eu não posso prometer que serei feliz pra sempre nem posso pedir pra que as pessoas me prometam que nunca me farão chorar, porque em algum momento eu chorarei compulsivamente por cada uma delas. Só tenho 21 anos e se eu for me preocupar tanto em tentar parar o tempo, os ponteiros do relógio passarão por mim sem que eu perceba e minha hora chegará antes que eu queira, me assustando de forma irremediável, sem me dar chance de voltar atrás.

Abaixo a cabeça e tento não pensar em todas essas perguntas, mas volta e vez elas me perguntam isso tudo outra vez. Não minto, tenho receio de quando a voz sem som me disser que o motivo não é mais errado. Mas até lá espero ter tempo o suficiente pra dizer "te amo" pra quem merece, "te adoro" pra quem precisa saber e "vai se fuder" pra quem quero longe.

"Sê prudente, começa a apurar teu vinho, e neste curto espaço abrevia as remotas expectativas. Mesmo enquanto falamos, o tempo, malvado, nos escapa. Aproveita o dia de hoje e não te fies no amanhã." (Horácio)


¹ shinigami: em japonês, "shini" é o substantivo do verbo "shinu", morrer; "gami" vem de "kami", que significa deus (qualquer um deles). Assim, shinigami = deus da morte. / No anime Death Note, shinigamis acompanham alguns seres humanos prestando-lhes serviços, mas podem oferecer facilidades - como, por exemplo, oferecer aos humanos que os veem a possibilidade de ver a data em que cada pessoa morrerá, em troca de metade da vida do requerente (que apenas não poderá ver sua própria data de morte).

11 de abr. de 2012

"A final song, a last request, a perfect chapter laid to rest."

"- Sinto-me mal.
- Por quê? - ela não conseguia conter a preocupação em seus olhos. Seu carinho era imenso, mas imerso sob um manto gélido de difícil penetração.
- Nada que importe. Apenas uma arritmia. Há de ser apenas o movimento do coletivo.

O banco de trás do coletivo, que outrora fora um confortável assento da carruagem nupcial; o motorista, que em outros tempos haveria sido condutor de tão belos devaneios e roubos amorosos; as fugas para os teatros da capital; os cachorros do interior; hoje tudo não passa de um coletivo, que passa levando e trazendo testemunhas de um crime sem réu.

Desceram do bonde como perdidos. Sabiam o caminho para casa, mas não se era para lá que queriam ir. Até que, àquela hora, passado o horário de moça direita estar em casa, decidiram sentar em um banco de uma praça, à vista de todos (da lua!! Das estrelas!!... das pessoas...), cousa absurda nove meses antes.

- Quero que me digais o que vos ocorre.
- Por que tão grã-palavras?
- Olhai ao céu. Que vedes?
- Tudo. - suspirou e refletiu. - A lua minguando a um quarto e estrelas brilhantes que banham um céu índigo.
- E o vento?
- Que tem o vento?
- E o vento? Para onde sopra?
- Que me dirias tu?
- Que, a julgar pela linda e movimentada sombra que vos recai sobre os ombros, venta rumo às montanhas.
- Então por que perguntaste?
- Por suposto que espero respostas.
- E se não forem as que felicitar-te-ão?
- Saberei, pois, que o vento venta em direção ao cemitério, e que minh'alma, por desventura, há de estar lá, junto a tantas outras em frios aposentos.
- E se minhas palavras felicitarem-te, teu caminho seria inverso?
- Não, mas menos tortuoso seria ao ter em meus braços tão formosa donzela (que sois) a esbanjar inveja por suma nobreza carregar ao longo de todo o Santana!
- Então, queres uma resposta por um capricho?
- De certo que sim! Pois como haveria de ser pouco caprichoso e egoísta o homem que tem a fortuna de poder cuidar da mais bela rosa que esta cidade já viu?
- Deduzo, pois, que há rosa mais bela no mundo.
- Sim, obviamente: a rosa que dela brotar.

Beijaram-se em público, negando a existência de qualquer um que ali estivesse. Não se encontraram desde a última viagem e não contiveram a saudade grudada em um abraço nem o desejo ao pé do ouvido, amenizado em um aperto de mãos.

Saíram do transe: após haver dito a ela que esperava respostas, ambos perceberam que sonharam acordados. Maldita sintonia! Havia dado o ar de sua graça uma vez mais, de forma tão inesperada quanto perfeita. Uma cachoeira de pensamentos em poucas frações de segundo.

Os olhos dele não encontravam os dela, embora esse fosse um pedido corriqueiro. O cabelo dela não saía de seus olhos, para evitar que desmentissem qualquer informação veiculada pelos lábios - que não queriam, de fato, falar.

Abraçaram-se envergonhados, sem saber direito o que fazer, viraram de costas e saíram como estranhos, desconhecidos que não mais sabiam onde estavam ou o que queriam. Ou talvez não quisessem nada. Dormiram com o pesar das pálpebras, salgadas como os mares do norte, e gélidos, como os ventos do sul.

Àquela noite o céu tornou-se nublado e o frio foi o pior em décadas. Mariana acordou gris, chorando um ano de lembranças tão dolorosas quanto carne viva. E aquela cidade, tão pequena, tornou-se enorme de repente e houve uma distância quilométrica entre o que antes tardava apenas quinze minutos para fazer o dia ter valido a pena."


Anna Carolina Land Corrêa.
Ouro Preto, 11 de abril de 2012.

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