3 de nov. de 2012

"Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves"

O que antigamente era sinônimo de uma pessoa próxima e muito querida, com quem se tem afinidades e se deseja compartilhar parte de sua vida íntima ou de seus problemas, uma pessoa que tem formas de agir e pensar parecidas com alguém a ponto de ser nomeado "amigo", hoje em dia pode ter tido seu significado mais amplo rebaixado à posição de colega, uma pessoa nem tão íntima, nem tão afim, com quem não se compartilha tanto da vida ou de problemas, mas que serve como amigo na falta de um. Ou quiçá até metaerroneamente é considerado amigo, apesar de tantos pesares. No Brasil, um fiel amigo não se parece com um colega. É normal fazermos distinções entre ambos os vocábulos - pudera, não são iguais. Em Portugal, um fiel amigo é um bacalhau. Ou um ladrão. (Pausa para reflexão...) 
Semelhanças à parte, acredito que fronteiras oceânicas não sejam pertinentes a um tema nacional.

Obviamente não são todas as pessoas que saem por aí falando que um colega é seu amigo sem saber se ele também se considera assim, mas algumas fazem. Carência, controle... o que quer que seja é um bom motivo pra isto acontecer. E claro que ela pode considerar aquela pessoa um amigo, mas para isso ela, minimamente, precisa saber que na cultura brasileira amigo é considerado um irmão e por quem as pessoas são capazes de abrir mão de certas coisas para ajudar. Até mesmo oferecer abrigo se necessário, querer estar por perto sempre e reconhecer na pessoa alguém interessante e cujas afinidades sempre tendem a melhorar a relação. Assim como o amor nasce da amizade por reconhecer diversos pontos afins, uma amizade também não deve ser mantida apenas com um único ponto de afinidade. Legal, ela gosta de Rolling Stones e você também. E só? E o papo, e as ideias, e a premissa de que amigo é pra todas as horas? E aquele "te pago na segunda" que você acha que é na semana que vem e é na próxima encarnação? E mesmo assim nem se preocupa porque sabe que um dia é você fazendo a mesma coisa com a pessoa - porque são amigas. Amizade é mais do que uma simples afinidade, é um conjunto de fatores que devem ser mantidos para que ela continue saudável. Mas e quando as pessoas são egoístas demais a ponto de não reconhecerem amigos ou preferirem colegas aos amigos de verdade? Cito dois eventos.

Fato #1

Fulana estava de caso com ciclano. O caso terminou, cada um foi pra um lado, passou-se um tempão, eles voltam a se falar, sem o menor interesse um no outro. Pura amizade, como sempre foi. Enquanto isso, ela acredita que as amigas com quem ela divide casa, que acompanharam todo o drama vivido, entenderiam a gravidade da situação (ok, elas não vivenciaram o caso, não sabem o quão fundo a história foi, mas presenciaram algumas coisas e qualquer pessoa sensata entenderia que era uma situação delicada). Um dia ela acorda com o beltrano, melhor amigo do ciclano, do lado dela. O desespero foi óbvio. Não fora algo premeditado e nem ela queria que rolasse, mas rolou. Decidiram que contariam a ele, mas não naquele momento, esperariam toda a poeira baixar. Mas alguém da casa contou antes pra pessoa, feriu toda e qualquer regra de respeito aos outros e ainda deixou aquela situação ruim no ar. Fulana sempre foi muito dedicada às amigas de casa, acredita que dividir casa com amigos é como ter uma segunda família, e cuidava de todos com o mesmo carinho e preocupação, que não retornaram da mesma forma. Ela não dividia casa com muitas meninas, só mais duas, ficou aquele clima chato dentro de casa e, diante da falta de consideração por parte de quem ela considerava uma "amiga", decidiu sair da casa. Está morando com uma outra amiga, esta sim sempre demonstrou ser uma amiga fiel (brasileira), aquela que apontaria todos os erros, mas não abriria a boca para ninguém por entender que ela não tem nada a ver com isso. Amigas de interesse financeiro?

Fato #2

O fulano era um desordeiro mal-educado. Tudo que precisava fazer era de qualquer jeito e sempre pelos ares. Nos bastidores, a fama era péssima e ele chegava até a ser evitado. Mas ele garantia a brisa da galera em dias quentes, frios... em qualquer dia a onda era boa, não tinha tempo ruim. Ele "salvava a galera." Certo dia ele precisou mudar, e cadê que encontrava um canto? Tava difícil mesmo, cidade grande é tudo muito caro, e só com o salário que ele ganhava ficava difícil pagar um aluguel sozinho, os valores estavam pela hora da morte até mesmo nas áreas mais pobres da capital. Ele precisava dividir com alguém, mas estava complicado achar alguém que topasse ser seu colega de quarto ou até mesmo dormir no quarto ao lado (quando encontrava um apezinho maneiro com dois quartos por menos de metade do salário que ganhava). Era mais fácil achar a galera pra "vida louca, vida." Ah, sim, pra isso os amigos estavam sempre ali, do lado, rindo, gargalhando, bebendo e tendo suas viagens narcóticas, dividindo o pouco que conseguiam dichavar, juntando as pontas das últimas conversas filosóficas para tentar formar mais uma, mais um pouco, mais amigos, mais, mais, mais... e menos, porque quando a brisa passa e a larica é saciada, o que resta é a casa vazia novamente, os amigos se vão e o aluguel continua a ser dividido por... um. Amigos sazonais? 


Outro dia na varanda aqui de casa, conversando com uma amiga (pausa para expressão facial de mistério), em meio a gotas de chuva, cigarros e cuba libre, chegamos à conclusão de que as pessoas estão individualistas demais para terem amigos. O umbigo delas é cada vez mais importante de limpar do que suas caras de pau (e sabidamente a madeira é mais complicada de manter em boas condições do que a pele). Dividir interesses pessoais parece ser o motivo para o início de uma amizade nos tempos contemporâneos em total contraposição aos valores antigos, em que amigos dividiam a vida, eram cúmplices e sanavam necessidades de outros pela amizade e não pelo que receberiam em troca. Nada contra os casinhos ou baseados, cada um é responsável por suas atitudes, mas na minha época (como se fosse há muito tempo) amigo era aquele que apontava o erro, mas te ajudava da forma como desse, por carinho e preocupação. E ajuda no que precisasse mesmo, ainda que isso significasse abrigar uma pessoa em casa durante uns dias, só até a situação ficar mais fácil.

Sinal dos tempos, minha gente. O mundo está sempre girando, as pessoas sempre mudam de opinião e é a coisa mais normal de uma sociedade mudar sua forma de pensar. Não há nada errado nisso; o complicado é conseguir manter-se mental e emocionalmente são em uma fase de transição.

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8 de out. de 2012

"O problema é a ressaca moral quando essa Frida vem me visitar"

É duplamente triste e depressivo usar a imagem de Frida Kahlo, uma das maiores pintoras do século passado, como acorde inicial pro texto de hoje. Disseram que ela era surrealista; ela afirmou que não se considerava assim, apenas pintava a realidade que vinha de dentro dela. E a própria vida dela foi muito tumultuada, com reviravoltas, tristezas e angústias demais... mas, por algum motivo, é assim que ando me sentindo.

Devo estar ficando velha, amadurecendo como alguns gostam de dizer, ou... sei lá, apenas mudando... não sei direito descrever, sei que minhas conversas com algumas pessoas andam sendo estranhas e intensas. Algumas eu até nem gostaria de ter tido (o álcool...), outras é até bom ter pra evitar catástrofes. Mas e quando simplesmente agimos, esquecendo de conversar? Ou até mesmo conversamos antes de agir e tocamos o foda-se mesmo assim?

Eu tenho a mente tranquila das merdas que faço. Um lema de vida sempre foi "quer fazer merda? Então faça direito." Tudo bem que eu nunca fiz muita coisa errada direito (chegar bêbada e ir direto dar bom dia pra mãe é um bom exemplo de insanidade e falta de amor aos dentes), mas, dentro daquilo que eu chamo de equilíbrio, tento me manter confiante na corda-bamba. Mas tem algumas merdas que, sinceramente, eu não sei porque continuo fazendo. Não são tantas, mas são de alguns tipos, e algumas até estão me fazendo pensar mais adiante.

O problema disso tudo é que isso gera um rebuliço em mim: coisas que eu pensei e não deveria ter pensado; que eu fiz e não deveria ter feito; que não fiz e talvez nem devesse ter pensado; que eu falei sem ter pensado a respeito nas consequências; que eu pensei, fiz e falei e não deveria ter feito nem metade... fica tudo guardado dentro de mim, como um baú de arrependimentos e gostos amargos sufocado por toda a alegria que eu tenho e essa desenvoltura para ser meio louca e irreverente a todo instante. E quando eu lembro de tudo o que eu prometi fazer ou não fazer e o tanto que eu já traí a mim mesma após prometer tais coisas, eu caio no sofá com a televisão ligada em qualquer programa tosco, só pra fazer companhia na sala fria, e começo a pensar por quê motivo, razão, circunstância eu não consigo simplesmente fazer algumas coisas da maneira como eu me proponho a fazer, ou como eu gostaria de fazer, ou até mesmo como elas deveriam ser feitas.

Não que eu seja uma artista, surrealista ou não, nem devota de Frida Kahlo, na verdade não simpatizo muito com pinturas, especialmente essas que retratam a escuridão humana e todos os sentimentos mais sórdidos do ser. Mas é que de vez em quando essas imagens me fazem lembrar do que eu realmente tenho por dentro, meus medos, angústias e prazeres não concretizados, as tristezas de algumas merdas consentidas e de outras feitas até sem querer, e aquela ressaca que não te sai da cabeça tentando te falar que o exterior não terá motivo para ser culpado de nada enquanto o interior continuar abafado, preso à alma como um paciente terminal está preso a uma cama de hospital.

O desesperador é reconhecer isso tudo e, mesmo assim, ainda cometer os mesmos erros, as mesmas merdas. Será medo de conhecer o surreal ou desejo de manter-se no impressionismo?