16 de jun. de 2013

"Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês."


Dilma Rousseff foi militante política durante sua adolescência na Organização Revolucionária Marxista - Política Operária sob influências fortes de Trotsky. Depois, durante a universidade, militou no Comando de Libertação Nacional - Colina, sempre sob diversos codinomes para não ser pega pelos militares. Participou em 1969 do sequestro ao embaixador americano, uma tentativa desesperada (e pacífica, já que há relatos do próprio embaixador dizendo que foi muito bem tratado) de um grupo de estudantes para libertar outros estudantes pegos pela Ditadura Militar. Foi torturada em nome do país, sofreu abusos sexuais, levou choques em nome de uma pátria autoritária e desrespeitosa. Hoje é a figura mais importante do país, que comanda o que entra, o que sai, que tem certa legitimidade para dizer sim ou não, muito embora suas decisões precisem ser pensadas por outras pessoas também. Mas, no fundo, se ela mandar, tá mandado. Então, diante da decisão autoritária mineira de que 853 municípios de MG estão proibidos de fazer manifestações durante a Copa das Confederações 2013, por que a presidente não comenta nada a respeito?

Fico me perguntando o que a adolescente Rousseff de 1969 faria se visse a transformação que ela sofreria 44 anos depois. Ela teria orgulho da imagem que vê? Ela teria as mesmas atitudes? Será que se renderia, assim como tantos outros, ao esquema das politicalhas deste país? Ou será que ela lutaria para fazer a diferença que sempre quis ver no mundo? Ela, que lutou tanto por igualdade, que sempre fez valer sua voz em luta dos direitos do povo, ela que foi eleita por tantos ícones de sua geração, por tantos adolescentes que acreditavam em todo seu sofrimento, por tanta gente que acreditava em sua história de vida e na possibilidade de mudança real... o que fez com que Dilma Rousseff de 2013 calasse aquela militante ávida por uma nação livre?




Talvez tenha acontecido isso, mesmo. Talvez os ideais tenham apenas mudado e aquela menina sonhadora tenha aceitado a realidade à sua volta, assim como tantos outros que participaram dos mesmos momentos de Dilma também mudaram seu discurso, vide Gabeira. Outros dizem que não teriam mudado nada, já que conseguiram aquilo que buscavam. Mas será mesmo que a essência muda assim, de uma hora pra outra? José Genuíno antes era um grande ativista dos direitos do povo, hoje chama os estudantes de baderneiros. Dilma sempre esteve à frente de grupos que lutavam pela liberdade de expressão e hoje simplesmente se mantém calada frente a toda a mobilização que assola o Brasil e outros países da Europa e da América Latina. São manifestações pelo direito do cidadão de receber serviços públicos de qualidade e a preço justo, que estão sendo ignorados não apenas pelos governos locais, como também pelo governo nacional.

E é muito TRISTE ter que admitir que a pessoa que poderia mudar tudo isso está de braços cruzados. Eu elegi Dilma Rousseff por um único motivo: militância política na ditadura militar. Eu pensei que uma pessoa que sofreu tudo o que ela sofreu, toda a arbitrariedade imposta pelo regime militar, faria de seu governo mais aberto ao diálogo com o povo e permitiria um início de mudanças sociais, onde governos nacional e estatais estariam em constante diálogo a fim de melhorar a qualidade de vida para as pessoas que neles vivem. Mas o que vejo é apenas uma pessoa torturada pela ditadura e que parece ter esquecido como é viver em uma sociedade autoritária; que vê governos proibindo algo permitido em lei, como no caso das manifestações públicas em prol de mudanças benéficas à população; e que está cedendo ao governo contra o qual tanto lutou, um governo de hipocrisias e atitudes autoritárias, que não ouve sua população gemendo de dor e morrendo por falta de atendimento em hospitais; uma população que recebe o péssimo serviço oferecido pelas empresas de ônibus, com motoristas que recebem pouco e são obrigados a trabalhar muito, sendo rudes por serem tratados como vermes, tal qual o restante das pessoas que utilizam qualquer serviço público; uma população que grita por seus direitos e recebe bala de borracha na visão, como tentativa de cegá-la para que não veja os podres governamentais. A população implora mudanças para que ela possa sobreviver saudável, mas tudo o que recebe de volta é ser chamada de baderneira pelos jornais, é ter as costas dos governantes estaduais que agem da forma como bem entendem e a hostilidade do governo federal, que finge não ver o que acontece, afinal é problema regional, não nacional. Ou melhor dizendo, ERA problema regional.

Não fizemos feio na abertura da Copa das Confederações 2014. Feio fez o governo em não entender o que estamos fazendo há semanas, há anos. Feio fez o governo por dar as costas às necessidades básicas da população. Nós vaiamos Dilma Rousseff, a presidentE eleita por um Brasil cansado de picuinha. A presidentE que quer ser chamada de presidenta, mas que não toma as atitudes necessárias para merecer o pedido que fez. A presidente que poderia ter feito diferente, porque este sempre foi seu discurso, mas até agora não fez mais do que o mesmo. Nós não vaiamos apenas a pessoa Dilma Rousseff; nós vaiamos os olhos fechados a uma população carente de tudo, que grita chorando e não recebe apoio de um partido que se orgulha de ser do povo. Nós vaiamos atitudes autoritárias que desmentem o conceito democrático do qual os governantes tanto se orgulham. Nós vaiamos os abusos que o povo sofre todo dia e que não são noticiados. Nós vaiamos R$0,20 de aumento porque não são apenas R$0,20 - são obras milionárias para ver onze homens jogando bola enquanto hospitais não têm médicos, enquanto doentes morrem em leitos esperando atendimento; enquanto tratamentos públicos de câncer são parados; enquanto é mais lucrativo ser traficante de drogas e armas do que aluno de qualquer escola; enquanto professores tentam fazer nas escolas de todo o país o que Dilma Rousseff fez durante a ditadura, difundindo ideias de um país melhor para todos, tentando fazê-los aprender conceitos importantes à noção de ser humano e gerando em seus alunos competência e sonhos para fazerem diferente, mesmo numa sociedade como a nossa, e recebem redução salarial das esmolas a que chamam salários, recebem spray de pimenta na cara mesmo quando são asmáticos enquanto tentam melhorias para escolas públicas (que só não estão piores do que os hospitais porque nenhum aluno tem sequer vontade de ficar dentro delas) e recebem o desprezo de uma população descrente que educação possa, de verdade, trazer melhorias a um país deficiente.

Eu me pergunto: como será que esta Dilma Rousseff...




... se sentiria hoje em dia? 



11 de jun. de 2013

"¡Al Gran Pueblo Argentino Salud!"

A citação de hoje é do hino da Argentina, eterna rival brasileira em esportes como o futebol, mas que, subitamente, parece estar sendo nossa nova favorita para campeã da Copa do Mundo de 2014 após uma declaração ao jornal britânico The Guardian feita pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Segundo ele, "Se eles [os argentinos] vencerem na final, eu me mato!" É o que esperamos, senhor prefeito! Mas assim como todas as suas promessas de campanha, tememos que esta o senhor também não cumpra. Mesmo assim a esperança não falha e nunca os cariocas foram tão hermanos quanto agora.

É bem verdade que política é sempre um problema na sociedade e que sempre haverá uma parcela da população descontente com o resultado que tiver sido obtido. Entretanto, o grande absurdo de ter Eduardo Paes em seu segundo mandato é não só a forma utilizada para ganhar, mas também sua maneira arbitrária de governar.

Durante as últimas eleições, foi feita boca de urna, declaradamente crime eleitoral, e nada foi feito quanto a isso; Dudu, como é conhecido ironicamente pelo mundo virtual, saiu comprando votos em diversos locais, fato que foi noticiado, mas nenhuma providência foi tomada. O prefeito ligou para diversas residências para pedir votos - aí, sim, ele se ferrou, porque foi considerado crime - mas também nada de tão importante foi feito, afinal, mesmo sendo crime, ele conseguiu se re-eleger. Há, inclusive, a suspeita de manipulação das seções eleitorais uma vez que a quantidade de votos para um candidato cotado para disputar o segundo turno foi muito inferior àquela contabilizada no dia da votação (e pouco tempo antes já havia circulado na mídia um informe da facilidade que é alterar os números da votação eletrônica, tida como "a mais confiável do mundo"). Tudo isto coloca nos cariocas um sentimento de raiva para com o atual prefeito por toda impunidade sofrida na frente de todas as câmeras, de todos os cadernos de jornalistas, de toda a sociedade, e pelo exemplo estapafúrdio que foi dado a todos ("para ser alguém na vida, trapaceie. No Brasil isso não vai te render nada de ruim").

Mas acredito que pior do que re-eleger alguém que bate nos cidadãos quando deveria dar exemplo de boas maneiras e de primeira classe é ter que conviver com decisões arbitrárias que não respeitam a vontade da própria cidade. Parece que Dudu age como uma criança mimada, que faz o que quer contra a vontade de todos os demais, sem ouvir mesmo os comentários que possam ser mais pertinentes não apenas para a cidade em si, mas também para seu governo. Não; ele quer, ele faz, tal qual um monarca, absolutista por excelência.

Que tal fazer um metrô na praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema? Afinal, a última estação vai até a General Osório, fica longe. Depois só tem Metrô na Superfície (que em outros países é um bonde tão reservado quanto o BRT, mas no Rio é apenas mais um ônibus). A Nossa Senhora da Paz é uma das poucas áreas com concentração de árvores no Rio de Janeiro, uma cidade que era banhada pela Mata Atlântica, mas que tem escassos exemplares dela. Mas para fazer um metrô ali, seria necessário derrubar as árvores existentes. Derruba! Dudu não é o único responsável pelas obras do metrô, aliás quem assina qualquer documento neste sentido é o [governador Sérgio] Cabral. Mas é muita inocência achar que, estando o metrô dentro da cidade do Rio de Janeiro, o prefeito não seria consultado, né? Afinal de contas, o governador assina o metrô como se fosse Estatal, mas Caxias, Nilópolis e Nova Iguaçu não têm estações de metrô. Ipanema, sim, tem uma, e agora quer outra. Mas... ah. Derruba, vai! Depois de um tempo, e de muitos protestos, a galera de Ipanema conseguiu reverter um pouco o processo, como pode ser visto na própria página do Governo do Estado, sem muitos danos às árvores centenárias da região. Talvez isso tenha acontecido pela pressão do dinheiro sobre a política, pois quando há manifestações contra o aumento das passagens de ônibus, que são abusivos se forem considerados os péssimos serviços prestados por todas as empresas de ônibus, nada é mudado e a população que não mora na Vieira Souto é tratada como verme, indigesto e indigno de atenção.

O Elevado do Joá está quase caindo. À época, Dudu e Cabral disseram que o laudo técnico apresentado pelos engenheiros estava errado (eles cursaram Direito na PUC, não engenharia; como saberiam que os laudos técnicos estariam errados?). Mandaram fazer outros laudos, que deram o mesmo resultado. "Ok", Dudu deve ter pensado, "vamos ter que ver isso." Solução? Duplica! CLARO! A solução para qualquer construção que esteja caindo é dobrar sua área. Ora! Qualquer estudante de engenharia sabe que não, e nem precisa ser aluno de uma Uerj ou UFRJ da vida, pode ser daquela pior mesmo que todo mundo conhece. Os pilares estão sendo reforçados, o que é bom, isso realmente deveria ser feito. Mas duplicar? Vai ficar bonito e tal... Só que existem obras na cidade que mal terminaram e já estão ruins. O próprio estádio João Havelange, "Engenhão", está interditado! E é uma obra nova (verdade seja dita, construído antes da gestão de Paes na prefeitura). Quanto tempo após a duplicação do Joá vocês acreditam que ele se manterá em pé, sozinho?

Outra questão perturbadora da gestão de Paes é o que está sendo feito nas favelas, em especial na Mangueira, ali, do ladinho da Uerj, onde casas estão sendo desapropriadas por serem consideradas "ilegais." Só que todas as casas de todas as favelas são ilegais, já que seus moradores não pagam impostos de natureza alguma. Então, o senhor prefeito decidiu remover todos os moradores das comunidades? Não. Qualquer pessoa que passe na Mangueira pela Radial Oeste vai perceber que algumas casas foram derrubadas, outras não. Mas todas fazem parte de um mesmo complexo residencial, então o que explica algumas estarem de pé e outras terem sido derrubadas? Arbitrariedade. Aparentemente ele escolhe quais ficam e quais saem. Como se ele fosse deus, aquele do antigo testamento, incapaz de perdão e inquestionável.

A gestão de Paes, do ponto de vista de construção e manutenção da cidade, se aproxima com a de Pereira Passos (prefeito do RJ entre 1902 e 1906), com essa arbitrariedade do "derruba tudo" sem muita definição do que, afinal, deve ser derrubado e o que seria interessante considerar. O que ele quer fazer, ele faz. Parece não se preocupar muito com a forma ou com uma regularidade; ele quer fazer o que ele quer fazer, porque afinal de contas quem vai levar a fama é ele. Mas fica a questão: fama de quê? De um prefeito que apoia milicianos, mesmo sendo eles um grupo de tortura das áreas mais pobres? De um prefeito que não ouve o pedido de seu povo e que sequer considera seus questionamentos? Dudu está assumindo a posição de uma criança mimada, que só faz o que quer quando quer e porque quer, sem levar muito em consideração qualquer coisa que é dita por qualquer pessoa.

Eu, atualmente, só conheço uma figura pública que aja da mesma forma: Felix, a bicha má.


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