10 de abr. de 2014

"Tea for Two"

Eles terminaram meio sem querer, meio sem pensar. Ou talvez tivessem pensado muito antes de terminar - e, quem sabe, isso deixou aquela dúvida. Sempre temos dúvida de algo quando refletimos demais a respeito. Mas o certo é que terminaram, foi cada um pr'um canto chorar as mágoas de um término conturbado. Estava na cara o desespero de ambos em voltar no tempo.

Ela, coitada, foi Judas. Mas ele talvez tivesse sido o fundador de uma igreja. Ninguém ali tinha colhões pra falar mal de ninguém. Ninguém ali se atrevia a elogiar também. O desprezo pela situação era tanto que ela viajou pra longe, onde não se pudessem encontrar. Ele sumiu de casa por uma semana.

Mas no fundo tudo o que os dois queriam era uma xícara de chá numa tarde fria. Ela fez o chá. Ofereceu. Ele sentiu o aroma e o desprezou. Fez outro, mais forte. Desprezou. Fez o chá favorito dele. Desprezou. Aflita, tomou todos os chás com a tristeza de uma mãe que perde o primogênito. Aos poucos ele foi se distanciando tanto dela que mal sentia o aroma do chá. De tanto tremer de frio num quarto escuro, os chás aqueceram-na de tal forma que o dia passou a ter graça. Entendeu que algumas coisas que aqueciam seu corpo faziam-na feliz, como se preenchessem algo que lhe foi roubado, como se fosse possível um ventre encher-se novamente de um aborto forçado.

Ela levantou a cabeça e, uma última vez, ofereceu chá àquele que sempre o pediu. Desprezou. Ela, então, passou a tomá-lo sozinha. Encontrou uma caneca vazia. Ofereceu-lhe chá. Aceitou. E conversaram por horas, dias, semanas, até que a distância de uma viagem pareceu-lhes pequena frente ao que estavam dispostos a fazer: chá. 

De repente, o desprezo de um tornou-se aflição, medo, angústia, como se o desprezar de um chá fosse garantia de vontade de tomá-lo. Ela não sabia mais o que fazer, mas já havia disponibilizado a outra parte de seu bule à nova companhia. Talvez houvesse algum resto de chá na garrafa, mas talvez não fosse suficiente para oferecer à outra pessoa. Talvez fosse preciso fazer um novo chá, e ela não tinha certeza daquilo. Depois de tanto desprezo, de tanto choro, de tanto esforço, achar alguém que aceitasse o chá de bom grado foi reconfortante a ponto de deixá-la calma e feliz.

Mais uma dúvida se fez presente... mas foi trocada por sorrisos a cada novo gole daquela infusão de camomila com toques de frutas silvestres. Não que a dúvida não existisse, ela estava lá, mas não a incomodava tanto. O doce que lhe aquecia as veias era acompanhado de uma prosa amistosa e conhecida, tal qual um déjà-vu, tão aconchegante que, de dentro do chalé, até esqueciam de tudo, de todos, da neve que caía lá fora e deixava a janela branquinha... essas coisas boas do Canadá.

.

24 de mar. de 2014

"O veneno que eu tomo querendo que o outro morra"

Desgosto.
Dor.
Amargura.

Um nó na garganta que me cala 
enquanto expurga o vômito ácido que me arranha a alma.
E é por causa desse corte que levo nas costas,
dessas unhas que arranham minha pele até sangrar,
é por causa dos meus dentes que se frisam pra impedir minhas palavras,
que eu não jogo tudo em cima de você da forma como merece.

É por desgosto, dor e amargura que você me toma por inteiro
e me dilacera sem dó o rosto e o deixa em carne viva;
e me faz gritar por socorro àquele que ainda me jogará ácido à risas.
É por desgosto, dor e amargura que você me causa bruxismo 
até que a língua sangre o que eu lhe quero dizer;
e me cega de tanto ódio que escorre pelos olhos;
e me faz condensar toda a raiva de uma vida inteira nas unhas
e urrá-la como se se tentasse espantar o demônio do corpo do próprio Satã.

É por pura desgraça que eu alivio esse ódio que me ebule por dentro
numa foto antiga que eu me juro não querer mais
e dela faço pintura, que imagino vender a outrem,
a quem lhe interesse surrealismo.
Mas é com tanto ódio que expurgo o que quero,
é com tanto rancor que eu olho pra tela,
que o pincel sem dó arranca da tinta a vivacidade que nela há
e em vez de flores, pinta sonhos
de horror, morte e maldizer,
e em vez de amores, pinta vidas
de câncer e rancores póstumos.
E é com tanta raiva que me desfaço de você
que meu pincel vira faca e seu corpo vira a tela
e não há nenhuma cor senão vermelha do meu corpo estraçalhado em frente ao seu.

E o que me resta é ódio, comum e solitário,
em mais uma tela na minha coleção.

.

Desafio Saligip foi desenvolvido por mim e pela Aline Mangaraviti e consiste de um post semanal contendo um texto nosso e uma imagem nossa (desenho ou edição) com o tema selecionado. O tema da semana passada foi Ira e estou postando com algum atraso. O próximo será inveja.

.