3 de jul. de 2014

"O Cupido tem uma arma"

- E quando ela voltar? O que será de nós?
- Eu não sei.

Assim terminou uma sequência de discussões infundadas e amores arrastados tão brutalmente quanto um menino que é preso do lado de fora do carro e levado em alta velocidade contra o asfalto quente das rodas cromadas. Discussões infundadas e amores arrastados tendem a ser muito parecidos: ambos são destrutivos, queimam a pele, fazem sangrar os olhos e contorcem as vísceras. Talvez aquela pergunta ainda tivesse um pouco de ácido sob os ferimentos.

Foda-se o amor.

Quem disse que o amor é uma coisa divina estava delirando. O cupido tem uma arma: sua primeira demonstração de afeto é pela dor de uma flecha encravada no peito. Depois, a flecha serve-lhe ao menos de consolo: ele precisa defender-se do próprio assassinato, apologize for what he's done. Mas pedido de desculpas algum é capaz de retirar as cicatrizes que esse anjo encapetado deixa. Nada nessa vida doi menos do que retirar uma flecha dolorida do peito.

Mas há quem procure esta dor.

Há quem não apenas se deixe acertar, mas, mesmo que num ataque de fúria, retire a flecha do peito e cauterize-o numa tentativa lasciva e inútil de retirar tudo de ruim dali. Mas os pontos internos não fecham e qualquer coisa que encoste durante o período de recuperação pode fazer o ferimento abrir. Só que - macacos me mordam! Não entendo por quê! - tem gente que insiste em colocar uma outra flecha no buraco que nem sequer começou a cicatrizar. Antes do tempo. Antes do desejo. Antes do amor. E o que acontece é o seguinte: o Cupido, este maldito, acerta uma flecha no peito, que doi como um suicida acertando o chão após 2 minutos de queda livre. A flecha é pressionada pra dentro, cada vez mais fundo, ao mesmo tempo que é girada. A hemorragia vai deixando o corpo mais quente por fora. A flecha é retirada da forma mais rápida possível numa tentativa insana de conter a dor - e outra flecha, menor e mais fina, é colocada no lugar. Isto depois de tentar cauterizar o machucado. Isto depois de jogar ácido no buraco aberto onde deveria haver pele, coração e pulmão. E antes que pudesse sequer haver uma pessoa ali ocupando aquele lugar onde não havia mais nada, uma flecha (ridícula, não faz dor alguma porque não tem conteúdo algum) é colocada ali.

A dúvida prova a falha de Cupido. E a estupidez de quem deixou-se sangrar à morte na tentativa de viver com um placebo - que de tão vil, chega a ser deplorável.


O que vai acontecer quando eu voltar?
"Better pray for hell, not hallelujah."


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5 de mai. de 2014

"Tristeza, por favor, vá embora. Minha alma que chora está vendo o meu fim"

Ela não sabia exatamente o que fazer naquele fim de tarde. Botou a identidade na mochila vazia, um casaco e saiu. Não queria saber pra onde mesmo, talvez apenas olhar uma paisagem diferente e respirar ar puro. Ela só queria que alguma coisa fizesse sentido ao menos uma vez na vida. Mas não fez.

Na volta pra casa, já com estrelas a iluminarem o caminho, precisou atravessar a ponte. Aquele vento gelado batendo-lhe na nuca e a esvoaçar seus cabelos parecia navalha. O rio que corria embaixo da ponte era rápido, feroz. Possivelmente gelado. Mas era incrível como as luzes da ribeira se somavam às estrelas refletidas nele e criavam um cenário tão propício a qualquer coisa.

Aos poucos foi lembrando de tudo o que a fez sair de casa: as lembranças ruins, as lembranças boas, as coisas que ela tanto queria consigo e não tinha. O vento era mais gelado do que os ferros da ponte, que ela alisava enquanto caminhava, lenta e atentamente, ao olhar pro rio e pr'aquele jogo de luzes a banhá-lo. E parou.

Ela nunca quis tanto na sua vida mergulhar. Mergulhar fundo, tão fundo que só ela soubesse voltar. Mergulhar fundo pra tentar achar algo que nem ela sabia o que era. Por um segundo lembrou das idas a Búzios, Arraial do Cabo e Rio das Ostras, de todas as fotos e filmagens incríveis que ela pôde acompanhar submersa, e desejou do fundo da alma fazer tudo de novo. Sem câmeras. O que ela visse ficaria apenas na sua memória, tal qual aquela imensidão de rio na sua frente, naquele único exato momento que ninguém vai poder recuperar porque está só na cabeça dela.

Contemplando a vista e perdida numa nuvem de lembranças, ouviu os cantos mais gloriosos vindo do rio e sentiu que precisava mesmo encontrar-se com ele na mais abissal das profundezas para entender do que seu corpo precisava. Ela ouviu a si mesma criança, treinando com o snorkel e roupa de neoprene na piscina da casa da avó, e sentiu a mais doída saudade daquele tempo. Aquele rio naquela noite era como um retorno pra um tempo perdido, uma época em que qualquer coisa poderia ser resolvida com um sorriso no rosto e uma boa ideia na mente. E, carioca, como poderia haver melhor ideia do que a água, o rio, o mar?

A noite estava fria e o vento gelado bagunçava seus cabelos de forma que ela mal conseguia enxergar a distância entre o rio e si. A criança que ela foi chamava-a para brincar naquela piscina e a adulta que ela era dava mil motivos pra ela não ir. Ela não poderia ser tão egoísta e esquecer de todos ao seu redor. Ela tinha deveres demais a fazer e coisas importantes assumidas para largar tudo e voltar a ser criança novamente. Mas ela precisava daquilo, no fundo era o que ela mais queria. No fundo, bem lá no fundo, era onde ela queria estar.

Anna retornou pra casa e deixou a adulta e a criança na ponte - a adulta vai ter com outros e a criança, ser feliz. Anna vai cumprir seus objetivos porque eles haviam sido firmados antes dela querer voltar pra casa. Enquanto isso, ela tem seus próprios novos objetivos a traçar. Anna precisa de um cinto de pedras na cintura se quiser mergulhar do jeito certo.

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