3 de dez. de 2016

"Se eu perder esse trem..."

Dezessete e trinta de uma sexta-feira de dezembro, a primeira do mês. Vou correndo pela estação na tentativa de conseguir passar pela catraca a tempo, mas a escada rolante estava parada, o que causou fila até pouco depois da bilheteria. Não havia jeito, precisaria esperar. Esperar as pessoas passarem pela roleta, esperá-las descerem - com os mesmos passos sem vontade da música. Esperar, enfim, o trem em direção à Central.

Quem é do ramal de Gramacho e Japeri entende o drama que é perder um trem. Mesmo às nove da manhã de segunda-feira o intervalo entre trens no ponto final não deve ser muito menor do que dez minutos. Sorte a minha que sou do Méier, ramal de Deodoro, não espero mais do que cinco minutos. 

Se tem algo do que não posso reclamar é de minha sorte: naquela sexta-feira o clima estava estranhamente agradável. Apesar do horário de verão, não havia qualquer possibilidade de calor escaldante: as nuvens negras, indicando a chegada de uma tempestade tropical, eram levadas para longe por uma brisa querendo sentir-se gelada. A Rua Dias da Cruz era cinza não apenas no chão, mas nas pessoas e nas nuvens. Adolescentes reclamavam dos pais, os adultos maldiziam o governo, o papagaio da dona Gertrudes xingou o vizinho de mal-parido de novo e uma mulher deu com a bolsa na cara de um taxista que passou a mão em sua coxa. Tudo parecia normal, exceto por ninguém estar suado logo após sair do banho. Era uma sexta normal de início de mês, mas tudo parecia meio mórbido, meio fim de festa, meio última sexta.

O barulho das minhas ideias foi interrompido pelo som estridente do maquinário. O contato,em alta rotação, dos parafusos dos vagões com o ferro (muitas vezes, já incandescente, embora nesta sexta não fosse o caso) do trilho do trem parece aguçar nos ouvidos a necessidade uterina de deslocar-se para seus afazeres. Ir àquele escritório na Avenida Presidente Vargas, um quadrado refrigerado em que você confortavelmente discorda daquele que paga suas contas. Ou visitar o médico que vai te passar exames de laboratório, procedimentos clínicos, um coquetel de remédios e sessões de quimioterapia para, no final, você só contar com sua crença em plantas medicinais e anjos celestes. Talvez você esteja na plataforma esperando o transporte que te levará a um encontro casual ou que te afugentará de vez de uma situação indelicada. 

Qualquer que seja o motivo, a sua paz interior será interrompida, primeiramente, pelo ranger dos vagões. Depois, um ódio profundo tomará conta do seu ser quando perceber que o trem está com algumas cadeiras vazias e que foram tomadas por gente que saiu correndo do outro lado da plataforma só para sentar-se ali, naquela cadeira que você tanto custou a achar. Na busca por lugares em outros vagões, você vê que não há escapatória: precisará ir toda a viagem em pé. Maldiz a pessoa que se sentou onde você queria, mas logo depois um pensamento invade sua mente: "Pode ter algum problema interno e eu estou fazendo um julgamento errado", mas logo em seguida conclui: "Maldita, tomara que pegue pra Caxias depois." Nada contra Caxias, até tenho amigos que são de lá, mas os trens são bem cheios. Especialmente às dezessete e trinta e cinco.

Outra sabedoria que só quem anda de trem conhece: vende-se o mundo nos trilhos. De barbeadores a cortadores de batata; de jornal a bala de banana Joice (uma moça no ramal de Deodoro tem a voz aveludada, parece radialista - moça, qualquer dia você tem que mandar seu currículo pra tevê!). Tenho a impressão de que só não se vende a mãe, mas tenho até medo de saber o motivo. Nunca vi ninguém comprando, mas sempre são as mesmas pessoas vendendo. Mas essa sexta tinha algo diferente.

Três pessoas vestidas meio hippies, meio carnavalescos, estavam fazendo mágicas e espalhando sorrisos e abraços pelo trem. Numa sexta-feira que combinava fim de mês com início de dezembro, ou seja, aquela sensação de fim de mês com fim de ano, fim de esperanças, fim da porra toda. E eles ali, apenas cantando, tocando uma gaita caseira, um acordeon que eu não sei até agora como está de pé: um tecladinho desses de bebê com uma bandoleira, pra ficar pendurado ao músico, e um tubo de plástico, preso grosseiramente com cola de pistola, com uma piteira na ponta para passar o ar. O que cantava fazia, ao mesmo tempo, umas mágicas que até o Senado brasileiro duvida. Por fim, uma simpática moça passava um chapeú com moedas, recolhidas de quem quisesse doar, e um papelzinho, que ela oferecia a quem não pudesse. 

Durante aqueles 8 longos minutos entre as estações Méier e Maracanã bolinhas sumiram e reapareceram, fizeram propaganda para um senhor, já cansado da própria idade, vender seus amendoins e suas balinhas refrescantes, animaram um bebê que chorava ao entrar no Sampaio. Puxaram uma música dos Mamonas Assassinas e o vagão inteiro se animou como numa roda de samba. Não posso provar, mas minha convicção diz que havia uma pomba-gira apaziguando os ânimos com sua dança e risada únicas, porque talvez só isso mesmo explicasse tantos sorrisos e animação numa minhoca de metal de fim de tarde, fim de sexta, fim de semana.

Quem sabe até fosse isso mesmo, a aproximação com fim de semana, que deixasse tudo mais leve e colorido. Talvez fosse só uma questão de mudança de paradigma.

Chegou a estação Maracanã e eu fiz questão de atravessar o vagão todo para dar-lhes os únicos centavos que tinha na mochila. Agora dançavam sem som em frente a uma criança autista, que, maravilhada, tinha toda a felicidade do mundo no sorriso. A moça que acompanhava a trupe agradeceu-me carinhosamente com o olhar e deu-me um dos papeis que estavam no chapéu. Na pressa de sair do vagão antes que a porta se fechasse, segurei o papel forte em minha mão e, ao contrário do fluxo, não fui em direção à escada rolante, mas posicionei-me ao lado dela. Agora aquelas pessoas todas já não me incomodavam mais, eu meio que estava gostando delas, da forma como todas formávamos um só coro ao cantarmos. Mas queria paz para ler o conteúdo do papel sem me preocupar com a mochila - no Rio, infelizmente, não se pode confiar em muitos contextos.

Enquanto tentava passar pelas pessoas na contra-mão e com a mochila à frente do corpo para evitar assaltos ou furtos, as portas do trem fecharam e a locomotiva seguiu seu curso. Vi os olhares da moça se afastando e não sei dizer se diziam "até breve" ou "adeus", mas, seja lá o que for, eram definitivamente canções alegres.

A sós e sem qualquer possibilidade de interrupção, finalmente abro a mensagem, que ela sacou aleatoriamente do grupo de tantas outras iguais a ela: "Os homens embarcam nos trens, mas já não sabem mais o que procuram. (Saint-Exupéry)"


Saí da estação. Olhei ao redor. Precisava descer a rampa e ir à aula. Precisava comparecer aos encontros, ter produção, publicar, escrever, participar... e a vida seguiu seu rumo, qualquer que ele tenha sido. Mas dessa vez, um tanto mais leve.

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12 de ago. de 2016

A moça

Moça, faça o que quiser, viaje pra onde quiser, mas não deixa de voltar, não.
Faz como o dia em que nos vimos
Naquele ponto de ônibus vazio na frente do prédio, sob aquele sol tímido
De uma tarde de inverno que tentava se afirmar
Só lembro que estava com sono, pensando 
Se não teria sido melhor ir pra casa, apesar do stress, 
Do tempo, da rotina
Apesar da comodidade, da certeza, da calmaria
Mas você veio com o uniforme igual ao meu
Que feliz coincidência, moça
Pensei "não sou a única"
Caíram tão bem em você aquela blusa amarelo ovo e a calça caqui
Aquele tênis-floresta amazônica
E o óculos, adornando o recôncavo dos olhos e marcando de leve a ponta dos cabelos
Moça, eu estava ansiosa porque havia acabado de perder o ônibus
Pra logo ali. Aquele logo ali de mineiro, que não dá pra ir andando.
Terceiro dia de trabalho e um atraso porque quis dormir demais
E você falou "pensei que eu era a única do prédio trabalhando lá"
E eu quis responder "graças a Deus que não"
Mas só consegui dar um sorriso e respondi.. eu nem sei o que eu respondi
Moça, o seu sorriso naquele momento me deixou meio torta
Meio sem chão, meio sem querer ter
Meio sei lá
Porque, moça, o seu sorriso é qualquer coisa de magnífico
Você ia para Copacabana, mas eu quis me perder na zona sul
Quis me atrasar porque a conversa estava boa
E falar de esportes e da rotina da vida, de como as madames encontraram as panelas 
- o que faziam penduradas na janela? A empregada de novo fazendo merda? - 
E tomar uma cerveja
Ou treze
E rir de qualquer coisa a noite inteira
E morrer de frio na janela olhando o horizonte pra evitar olhar seus olhos
Porque, moça, tive que entrar naquele ônibus correndo
Depois que você disse "Via Parque"
E eu não sabia se o tom era de pesar ou de alívio
Não sei nem se você disse para que eu fosse - na minha cabeça, era isso mesmo o que você queria
Só sei que eu passei o resto do dia me odiando, moça, 
Porque você sentou do meu lado
E falou comigo
E eu estava aérea - primeiro de sono, depois de nervosismo
E eu teria mesmo me jogado no ar se me visse ali, na minha frente,
Sem conseguir me mexer no lugar. 
Não consegui nem ao menos saber seu nome.

Deixei um bilhete na portaria com o último cartão de visitas que eu tinha
Mas aquela tradução eu jamais conseguiria fazer plenamente
Acho que foram dois dias de espera
Em que a alma saiu do corpo por uma perfuração na garganta
Moça, eu não fazia ideia da sua reação ao receber o bilhete
Eu não fazia ideia sequer de que você receberia o bilhete
Mas meu coração se aqueceu de uma maneira cor-de-rosa 
Quando vi aquelas letras na sua carteira
Moça, você respondeu
E eu já não sabia onde enfiar meu rosto de tanta vergonha
Sei nem de quê
E quando daquele assovio 
Minha espinha inteira se arrepiou como sexo algum consegue
Um arrepio que ia do osso ao pelinho, da falta de ar à cara de pau
Do azul ao roxo
Da MPB ao rock
Moça, você me fez sentir como há muito não me sentia
Essa vontade de sentir esse medo todo
Esse pavor de se esconder pra não ser visto 
Fazendo justamente algo que chama atenção
Moça, você chama minha atenção

Tem algo em você que soa gostoso
Ali naquele ínterim da Bossa Nova com futebol
É como um verde-caribe na segunda pela manhã
É como a leveza de um fardo que a gente solta de um penhasco
Pra nunca mais abrir
É como se jogar de parapente sem ter pressa de chegar
E filmar o percurso pra, depois da adrenalina, os detalhes ficarem vivos na mente.

Moça, eu quero te ver de novo
Quando você volta?

2 de abr. de 2016

Metamorfose de Narciso

Eu não gosto de anabolizantes. Muita gente não gosta. Mas muita gente gosta de maquiagem, peito de silicone e remédio para o cabelo crescer e eu não vejo muita diferença disso pra um anabolizante.

Anabolizantes são aquelas pílulas ou injeções que as pessoas tomam para ficarem maiores, mais magras, mais desejáveis. Ser menos de si aparentemente é ser bonito. Beleza, entretanto, é um conceito relativo. Gregos, renascentistas e pós-modernistas, para citar apenas algumas fases da humanidade, entendem o belo de formas diferentes: mais musculoso, mais gordo, estética acima de tudo. Não é preciso ir muito longe para ver a complexidade do tema: Monalisa ainda é considerada a mulher mais bela do mundo, mas ainda é incerto se a pessoa que serviu de modelo era um homem ou uma mulher. Transgenia artística? Androginia natural? De qualquer forma, é comum ouvirmos que uma mulher halterofilista é feia "porque parece um homem." 

A vida imita a arte que imita a vida. 

De tantas mil maneiras que a beleza pode ser, a que me incomoda é a arbitrária. É comum, e correto, diga-se de passagem, ouvir que anabolizantes aceleram um processo metabólico que aconteceria naturalmente. Opta-se, entretanto, por uma instilação de hormônios, que não vai causar muito menos do que uma TPM severa (pelo menos assim os homens entendem um pouco do nosso drama). Cabelos também crescem naturalmente - cerca de 2cm por mês com uma dieta saudável. Sei disso porque já fui careca um dia. Você também. Todos fomos. Talvez demore dez anos, talvez demore dois, para que as pessoas tenham o cabelo na altura que desejam, mas isso sempre acontece (a menos, claro, que alguma doença aconteça - nem entrarei nesse assunto). É possível alcançar esses objetivos, e outros, com regularidade de exercícios e alimentação adequada. Para que querer isso para ontem, então?

O aparte aqui se dá, obviamente, no caso da maquiagem, que não atua diretamente em processos biológicos, mas cuja praxis é muito semelhante: a obtenção de uma qualidade que originalmente... não está? O olho não é naturalmente destacado ou é oriental demais (como se isso fosse ruim...) e é preciso arredondá-lo? Há uma cerimônia chique e é necessário parecer diferente - porque no cotidiano é sempre igual? É sempre pobre? Porque é preciso ficar bonita (porque normalmente não se é?)? 

Essas respostas, que eu questiono quando me perguntam por que não gosto de maquiagem, são sempre rebatidas com "Sou, mas quero mais." Há uma necessidade de ser e ter logo, já. Deixam a paciência para o trânsito caótico da cidade e para as longas viagens (que chegam a custar o dobro do preço para não ficar o dobro do tempo no trajeto). A beleza, seja ela qual for, deve ser adquirida a todo custo antes de pensada e refletida. 

No espelho nunca somos; estamos. Ser é muito difícil de mudar. Mas se podemos ser quem quisermos, que seja hoje.


A vida imita a arte, que imita a vida.

Metamorfose de Narciso - Salvador Dalí.
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23 de fev. de 2016

O quarto azul

Comecei a escrever aquele livro que há anos venho postergando. Cheguei a fazer um croqui dos personagens, espalhei diagramas pelas paredes azuis do quarto pra não me perder na narrativa da história. Você me ensinou isso. "Quando a ideia é muito longa, minds might be tricky", você dizia. "É preciso organização espacial pra mente entender os arranjos da literatura." A história está engatinhando. Tem 30 páginas - feitas em um dia - e as ideias estão borbulhando. 

Eu comecei a escrever isso porque você disse que seria legal, e está mesmo sendo. Toda vez que tenho um pensamento, olho pra uma das paredes e, mentalmente, modifico as conexões. Cada parede é uma parte da história, e tenho ainda uma parede livre, espaço de sobra para rabiscos. Rearranjo alguns personagens, mexo as ideias de um vértice a outro. Uso o perímetro da porta até a janela como uma régua, para medir a progressão dos acontecimentos, que têm que caber em todo o espaço o qual esta reta possa atravessar (parece curto ou muito estreito, mas vai do chão ao teto. O pé direito é alto). Para cada ideia, penduro um barbante no ponto inicial e levo até o ponto desejado. Quando penso que é o desfecho que quero, prendo com fita adesiva. Já arranquei tantos barbantes da parede na tentativa de mudá-los de lugar que as paredes estão ficando sem tinta. 

Essa ideia quem deu também foi você. Você gostava de pintar as paredes e reorganizar as coisas, então acho que se eu destruísse um cômodo isso te daria ânimo para fazer um projeto, remodelar o espaço, renovar o ambiente.. enfim. Trazer aquela paz que é abafada pelo caos. Fazer brotar a flor de lótus.

Tantas coisas que você quis que eu fizesse... e eu fiz, porque eram boas pra mim também. Plantei uma árvore - que fazia uma sujeira ridícula no jardim, você tinha verdadeira paixão por jardinagem. Tive um filho - se cachorros contam como um - e ele roía os móveis e sujava a varanda, mas você não ligava porque todo Natal tínhamos uma nova sala ou cozinha, e novos vidros na varanda, pra que o vizinho do sexto andar não reclamasse da limpeza. Parei de tomar refrigerante e regulei a alimentação - confesso que adorei quando o cabelo parou de cair. Entrei pra academia e até meu cardiologista elogiou a perda de gordura. Agora estou escrevendo um livro, mas a verdade é que de trinta páginas, só tenho o título - provisório. Todas as linhas são resultado de space porque, na minha cabeça, talvez a próxima tentativa me desse subsídio para escrever algo substancial. Isso nunca aconteceu.

Mas em meio a toda essa reviravolta que você trouxe na minha vida, eu me vejo enrolada nesses tantos barbantes pendurados. Acontece que você não me pediu pra sair, mas saiu. Você não me disse o que fazer, mas fez, e eu não estou acostumada com isso. Você me deu a ideia, me deixou com a confusão, e eu não consigo mais encontrar o ponto de partida em um quarto cujas paredes nem me permitem mais tirar conclusões. No desespero, eu tentei pintar uma parede com um pouco da tinta que restou da última reforma, mas mesmo depois de horas ainda não consegui sequer conjecturar uma possibilidade. Havia apenas silêncio e a sensação de um quarto obscuro, solitário. Não sei se foi porque, inadvertidamente, pintei a sanca, ou se foram as gotas de tinta que mancharam o rodapé, que não estava protegido, mas nada que eu pudesse fazer por conta própria me daria a resposta que eu precisava.

Comecei a pintar os barbantes e todo o resto do quarto. Talvez dê pra começar do zero se tudo estiver da mesma cor, como se nada nunca tivesse acontecido.

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20 de jan. de 2016

"Azul da cor do mar"

Fernando, 39, drogado e prostituído.
Esses poderiam ter sido meu nome e minha vida se eu tivesse levado a sério o que me disseram anos atrás. Hoje, eu me resumo a uma piteira do lado do computador, um black-out na janela de vidro fumê e uma igaçaba, presente de um tio em sua fase marajoara, que adorna o whisky que embala meus dias.

Eu não era muito diferente de qualquer outra pessoa da época: costumava beber socialmente, tinha um bom currículo, uma boa aparência e sabia falar bem. Dizem que pra mulher é mais fácil conseguir um emprego. Em alguns momentos tenho certeza de que as volumosas coxas falaram mais alto do que minha fluência em francês, mas sempre fui uma abelhinha - tanto no mel quanto no ferrão - e saber me impor nunca foi um problema. Na verdade, meu problema é a vida.

Havia essa pessoa que era muito especial pra mim e que sempre teve uma vida miserável: apesar de ter dinheiro na conta, não era da cor que esperava. O suor que molhava o dinheiro não era exatamente pelo que ela lutava. Entrou na faculdade na efervescência de um curso e, quando se formou, o mercado estava saturado. Trabalhou longos vinte ou trinta anos em algo que, na verdade, nunca lhe chamou a atenção. Depois de velha foi fazer o que realmente gosta, largou o trabalho árduo e agora está feliz. E com mais dinheiro, porque se dá ao máximo. Sempre ouvi de seus lábios: "não escute o que os outros falam. Forme-se no que você gosta."

Eu deveria ter seguido o conselho e não ter ouvido. Formei-me por ideologia, trabalho com o que não gosto, me dou ao máximo pelo que não acredito e estou fodida em um mundo que não valoriza o bem-estar social. Meus pais costumavam dizer que a minha geração é cheia de contradições: licenciados que não querem dar aula, advogados com teias na carteira da OAB, Relações Públicas ou Internacionais que têm fobia social. Estavam certos. Agora estou velha, sem saco para uma nova faculdade, levando com a barriga a escolha que fiz e segurando um forninho capitalista a ponto de desabar sobre meus ombros, tudo porque quis fazer aquilo que eu gostava e não soube perceber que o que eu gostava era uma paixão e que não existe amor em SP.

Como todas as minhas decisões passionais tornaram-se desmotivacionais, decidi que o que me motiva agora é não enlouquecer. A pior perda do ser humano é a perda ideológica, e a minha foi queimada junto com meu diploma. Mas quando não nos encontramos no corpo que temos, de que modo manter a sanidade? Eu queria meu corpo diferente assim como eu queria estudar Belas Artes, mas o medo da loucura novamente me fez dar pra trás. Aprendi que uma coisa é a vida financeira; outra, a vida pessoal. Ser homem não era mais algo que eu quisesse fazer, senão por hobby. Tive medo de, outra fazer, tomar um caminho e me arrepender - porque o mundo não aceita, porque não dá dinheiro, porque ideologia não é algo pelo que viver. 

Decidi ser Fernando e Isabel: um por amor; o outro, de nascença, por necessidade. Um é alegre, espontâneo e contente, feliz no trabalho, motivador e guerrilheiro. Quando o expediente termina, o outro só senta e conta os dias pro fim, seja por câncer ou por cirrose. Lembranças de histórias que o faziam ter fé no futuro agora não passavam de quadros tortos na parede infiltrada. Mofo, pó, whisky, tabaco e a eterna ingratidão de ver o que você mais ama quebrar na sua frente, ficar resumido a 6m² refrigerados e escuros.

Não me disseram que é isso o que acontece quando você decide fazer o que gosta, mas eu deveria ter lembrado que, na adolescência, eu não gostava mais de bonecas. 

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12 de dez. de 2015

Marcha imperial

Era fim de outono quando aconteceu. As árvores já estavam praticamente sem folhas e em alguns lugares já havia uma neve tímida sobre o telhado das casas. Gosto de rituais e esses dias mais frios me lembram a doçura que é chegar do trabalho, tomar um banho e relaxar na frente da TV vendo um bom filme e tomando um chá. Gosto de chás dos mais variados e de filmes argentinos, espanhois, americanos, franceses... gosto de chás, filmes e rituais e do amor que os envolve. Esse amor que nos dá motivo para retornar pra casa todos os dias, esse amor que abraça e entrelaça os dedos. Mas foi durante um desses rituais que ela simplesmente escapou das minhas mãos.

Ela apareceu na minha vida há muito tempo. Era praticamente da família. Foi um namoradinho, Hector, que me deu quando ainda morava em São Francisco. Eu era ainda muito tímido e estávamos comemorando nosso segundo Pride (na calada pros nossos pais não desconfiarem), mas parecia que nos conhecíamos há anos. Fazíamos de tudo juntos como melhore amigos de colegial costumam fazer: de baladas a maratonas de filmes, estudávamos juntos e fazíamos futebol e vôlei à tarde. Pra nossa família éramos amigos de infância, mas na nossa cabeça casaríamos, adotaríamos duas crianças e um cachorro e viajaríamos pra lugares desconhecidos todo verão. Como expressão do amor que ele sentia por mim, me deu uma caneca de Star Wars. No formato de um Storm Trooper. Em caveira. Psicodélica. Ele sabia mesmo me ganhar. 

Ficamos juntos ainda uns meses e depois Hector se aventurou no mundo, mas a caneca ficou. Acho que os rituais começaram nessa época, quando eu ainda precisava senti-lo do meu lado. Chegar em casa da faculdade depois de assistir aulas complexas e saber que ele não estaria ali para assistir séries, filmes e documentários comigo, abraçado, na frente da lareira, era menos estressante se o Storm Trooper estava - sempre quentinho, como se o coração dele estivesse colado ao meu. Era como ter um pedaço dele nas minhas mãos sempre. Com o tempo ela perdeu a simbologia do namoro e ganhou um conceito mais abrangente, quase poético, cinematográfico, e passou mesmo a fazer parte de um rito. Se você leu "O Pequeno Príncipe", jovem padawan, sabe do que estou falando.

Um dia cheguei em casa exausto. É quando você começa a lecionar na faculdade que percebe que a vida de aluno era menos árdua. Já passava das oito. Tomei um banho quente, fiz umas torradas e sentei na minha poltrona para relaxar. Havia feito um chá de frutas vermelhas com toques de baunilha - esplêndido, por sinal - e sentei para assistir uma produção independente. Chamava-se "As trilhas perdidas" e era sobre um grupo de mochileiros que há muitos anos explorava essas cidadezinhas pequenas do Oriente Médio que não eram muito conhecidas. A ideia era entender o modo de vida daquelas pessoas, dormir na casa delas como convidado (o que foi raro, mas deu certo em alguns casos), conhecer de que maneira a questão de gênero é abordada - ou não. Muito interessante.

Quando levantei para buscar mais chá, ao fim do documentário, vi o nome do produtor: Hector O'Connel. Há muitos anos não tinha notícias dele, nossos caminhos seguiram direções muito diferentes, mas fiquei feliz em saber que ele chegou no patamar que queria desde pequeno. É bom quando pessoas importantes pra nós conquistam coisas importantes pra elas, né? Um sorriso saudoso e orgulhoso brotou no meu rosto e talvez tenha sido um dos mais sinceros dos últimos vinte anos. As pessoas não entendem quando me orgulho, de graça, de coisas que até mesmo desconhecidos conseguem - acho que é por essa falta de empatia que as pessoas veem o mundo cinza.

Fui para a cozinha. A cada gota de chá vermelho com cheiro de tranquilidade que despejava na caneca lembrava dos momentos que passamos juntos, eu e Hector, e de como aquele Storm Trooper apareceu na minha vida. Lembrei dos rituais que realizávamos e da cumplicidade que tínhamos mesmo quando um de nós estava errado - afinal amigo te defende até o fim, mas também te joga um balde de água fria quando necessário. Eram bons tempos. Tive vontade de rever o documentário com Matthew e explicar a importância daquela caneca, que ele nunca entendeu, mas sempre respeitou. Recuei minha ideia: acho que ele não entenderia. Às vezes confundimos saudade sensorial e saudade amorosa e uma pode não ter nada a ver com a outra. O que eu sentia naquele momento era a saudade sensorial, é como sentir falta do gosto mais do que do ato de beber, comer ou fumar. É uma nostalgia de um momento que não se deseja reviver. Mas, ciumento como é, Matthew talvez não entenderia minhas motivações para trazer tudo isso à tona. Calei-me.

Esqueci completamente do chá sendo despejado na caneca e só me lembrei quando muito dele transbordou e caiu no meu pé, quase fervendo. O susto e a dor me causaram um espasmo acidental.

 AHHH NÃO!!! NÃO, NÃO!

*praaaa*

MERDA! MINHA CANECA! PUTA QUE PARIU!

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13 de nov. de 2015

"Sonífera ilha"

Eu queria escrever algo sobre a minha vida, mas não queria que muitos soubessem.

Estou há uma semana tentando escrever uma crônica, poema, música, mas não sai nada interessante (ou a minha autocrítica está muito ruim).

Então pensei em escrever num diário, porque é uma reflexão que pertence a um grupo de outras e seria interessante ter uma visão vertical sobre o progresso dos pensamentos em algum momento da existência, mas o único diário que ainda resta está desatualizado há TANTO tempo que não há como manter uma linha cronológica entre o que eu quero expressar e o último acontecimento. Até tem, mas estou com preguiça de atualizar.


Decidi dormir.


" - Não sei quem foi que disse que a gente devia se matar na adolescência, quando as coisas ainda são bonitas. (...)
- Olha, uma vez eu li um cara, um escritor chamado Cesare Pavese, que dizia assim: 'Ninguém se suicida por amor. Suicida-se porque o amor, não importa qual seja, nos revela na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado desarmado, no nosso nada.'
- E o que aconteceu com ele, esse tal Cesare?
- Se matou."
(Antípoda - Caio Fernando Abreu)

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17 de out. de 2015

"Cálice"

Quando falo que sou carioca muita gente não entende por que resolvi deixar uma cidade grande e me mudar pro interior. Além da especialização profissional, eu buscava um pouco de paz e sossego, um pouco de frio, um pouco de humanidade.

Das coisas que mais me incomodavam no Rio, a falta de respeito era a pior. Ela vinha de todos os lados: gente que pulava a catraca do ônibus sem motivo, assaltos à porta de casa (eu mesma tive dois celulares roubados numa mesma semana quando voltava do trabalho), prefeitos que roubam vigas de viadutos derrubados. Certa vez, em uma mobilização pacífica, a polícia recebeu ordens de atirar contra um grupo de manifestantes que oferecia o enorme perigo de estar cantando sentado no chão. Tudo parecia ficar ainda pior quando o frio passava e ficava apenas a amostra grátis do inferno: uma primavera com temperatura de 36ºC às nove da manhã.

Não tive palavras para expressar a liberdade que senti quando cheguei em Mariana. É verdade que a cidade poderia ser melhor, ter mais eventos para os moradores, mais atrações para os turistas, mais água nas casas no carnaval, mas o clima agradável, o ambiente histórico preservado, a gentileza da maioria das pessoas daqui fazem com que os lados negativos sejam abafados. Diferentemente do Rio, eu me sinto confortável aqui para ser quem sou e ir aonde quero sem me preocupar com toque de recolher. Há rumores de assaltos e alguma violência na cidade, mas, talvez por sorte, todas as vezes em que vi o sol nascendo na Praça Minas Gerais foram sempre muito calmas e pacíficas.

É importante que o clima de respeito ao outro permaneça em Mariana, afinal é um dos atrativos da região, e o trabalho da polícia militar tem sido exemplar nesse sentido. Por meio de denúncias dos moradores (não apenas nativos, mas estudantes também), alguns traficantes foram presos em flagrante. Outros, que já vinham sendo investigados, tiveram mandado de busca e apreensão expedidos e também pararam atrás das grades. É claro que ainda há muito a ser feito, vide a Operação Minerva, quem poderia vir para Mariana, e os constantes assaltos e ataques com bombinhas contra casas nos bairros São Gonçalo, Rosário e Santo Antônio, mas é necessário dar um passo de cada vez.

Já estive em muitas festas em residências de amigos meus, nativos desta cidade, em que viramos a noite bebendo, rindo e ouvindo música. Moro do lado de um clube onde festas acontecem normalmente e parece que estão dentro da minha casa. Comemorações são normais do ser humano e não há nada de ilegal nisso em um país democrático, como é o Brasil. Recentemente um estudante foi preso na Praça Minas Gerais durante um luau de confraternização entre universitários (muitos dos quais, marianeneses e ouropretanos). A situação: maiores de 18 anos cantando e consumindo bebidas alcoólicas. O flagrante: um violão.

Polícia militar, é verdade que a senhora só deve prender criminosos se tiver um mandado expedido por juiz? É verdade que o flagrante de um crime deve ser algo considerado ilegal? É verdade que a senhora só deve encaminhar um suspeito à delegacia em caso de flagrante ou se for procurado pela justiça?

Senhora? Senhora?

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7 de out. de 2015

Catarina, A Grande - de imperatriz à filha da Mel e do Fabrício

Mel, sabe quanto tempo tem a foto aí embaixo?



Você nem deve lembrar dela porque, pouco tempo depois que a tiramos, você começou a roncar na minha cama - e eu, claro, tive que dormir no chão. Também não sei se você lembra que nesse dia fomos da sua casa até o morro interminável do São Gonçalo com um copo de Cuba Libre cada uma e, chegando lá, percebemos que não levamos o rum - e voltamos tudo pra pegar a garrafa (depois subimos tudo de novo). Nenhum forninho foi derrubado naquele dia, mas teve um celular que caiu na privada - e você, claro, não se dignou a parar de falar mesmo assim.

Não tome isso como uma reclamação - eu adorava cada segundo. Mas é que daqui a mais ou menos um mês essa foto completa exatamente 3 anos. Dá um choque, né? Fiquei passada também. Ela é de 2012 e, de lá pra cá, parece que um oceano inteiro de coisas (e vodka, e rum e muuuuuita cerveja) passou pela nossa vida, fodeu tudo com um tsunami e depois aquietou.

Não vou falar só de você, porque eu sou amiga filha da puta mas me fodo junto: você também já segurou a minha barra. Já desmaiei louca na sua casa, você já me impediu de entrar num carro visivelmente bêbada e sem saber dirigir (e eu ainda queria descer uma ladeira!), já segurou as minhas bad trips quando a onda bateu e já teve que lidar comigo passando vergonha na casa dos vizinhos que você ainda nem conhecia ("Por que a sua amiga está me chamando de Pé-de-Moça?"). Você comeu brigadeiro de panela comigo, mesmo sendo diabética, só porque eu estava de TPM  é muito amor, né?

Viemos para Mariana por razões diferentes, moramos com pessoas diferentes e vivemos vidas diferentes. Estudávamos no mesmo lugar, partilhávamos as mesmas companhias; como demoramos um ano pra começar a trocar ideia? A foto aí em cima foi tirada pouquíssimo tempo depois da gente começar a se falar - acho que uns 3 meses depois. E, apesar de muito efusiva, eu sou muito reservada e pouquissima gente sabe mesmo a fundo sobre a minha vida, mas, por algum motivo, você entrou nela como alguém por quem eu tenho uma estima incalculável, é - sem sombra de dúvidas - a melhor amiga que eu fiz aqui e alguém por quem eu torço sempre, pelo resto da minha existência.

Poucos meses depois, a gente quase morreu neste dia aí:



Você se convidou pra ir passar o carnaval no Rio, na minha casa - e eu, CLARO, disse sim! Sem rancor, sem enjoo. Não gosto de ter ninguém na minha casa, mas você... cara. Você não é qualquer pessoa. Levamos Jack e Day pra curtir Copacabana, Ipanema, praia da Barra... e, CLARO, que as dondocas não-acostumadas com comida da praia tinham que passar mal. Fiquei preocupada e logo pedi pra uma médica (veterinária kkkkk) receitar algum remédio pra vocês. E o cara da Fazenda Botafogo (uma favela), que a Day pensou que fosse morador de Botafogo (bairro nobre)? "Se quiser ficar, tudo bem; eu só quero o dinheiro da pensão!" Aquele cheiro de maconha na praia e as velhinhas olhando pra Jack, que estava fumando cigarro de palha. Ahhhh, e como esquecer do presente que Iemanjá mandou?
Só pra lembrar: a foto é de 2013.

Nós passamos por muita coisa: apertos, barras pesadas, sofrimentos, alegrias demaaaaais. Acho que a gente se deu bem porque você parece comigo: ri das desgraças, arregaça as mangas e começa a trabalhar. Tô pra conhecer mulher com mais garra - apesar de precisarmos (a Jack, mais especificamente...) tirar você debaixo da cama em algumas situações... sinto que às vezes você é uma parte de mim que andava perdida por aí e que eu encontrei assim por acaso. E foda-se se está soando lésbico isso tudo: preciso lembrar que durante um tempão (nem faz tanto tempo: foi em 2013 também) a gente ia pra TO-DO-LU-GAR juntas? Você claro, linda, diva, toda arrumada, porque já sabia dos eventos com horas de antecedência. me falava que só ia se eu fosse - e eu, claro, estava sempre precisando me arrumar atrasada: colocava um tênis, camiseta larga e jeans. Nunca me preocupei muito com isso - o importante era estar com você. 

E agora, como se eu não pudesse ter mais orgulho de você, pela pessoa que você é e pela garra que tem, você me dá o maior orgulho da vida:




Catarina, libriana com ascendente em capricórnio (se segura, mamãe...), fruto de um amor sincero, que eu agradeço todos os dias por ter acontecido - pelo Fabrício ser esse homem tão excelente na sua vida, por vocês se darem bem e por ele te apoiar sempre. Catarina é fruto também da sua determinação: por seguir uma dieta tão rigorosa, por ter colocado a sua própria vida em risco... ainda acho que os gatinhos poderiam ter ficado, mas só quem é mãe entende o que passa nesse coraçãozinho. (Mas se tiver outro baby, saiba que pode ter gatinhos à vontade, tá?)

Eu não gosto muito de crianças em geral, não tenho muita paciência com elas e é muito difícil achar uma com a qual eu tenha afinidade. E você bem sabe disso. Mas eu já amo demais a Catarina, pelo menos enquanto ela não estiver chorando. Sabe por quê? Porque eu sei que esse era o seu sonho. Eu sei que você quis muito isso e compartilhei a sua angústia junto com a sua certeza de que daria tudo certo ao longo dos últimos 9 meses. Eu só queria que esse momento te fizesse a mulher mais feliz desse mundo, porque você merecia isso, e, agora que Calili chegou ao mundo, sei que você está com um semblante complexo. Talvez exausto de tanto tempo no hospital, talvez fique cansada nos próximos anos (noites sem dormir, dores no peito quando os dentinhos nascerem, trocar fralda no meio da madrugada)... mas eu consigo sentir a felicidade que você está sentindo. Você é a mulher mais feliz do mundo agora e eu me sinto absolutamente completa por ter podido acompanhar isso. Obrigada!

Obrigada pela amizade indestrutível, obrigada por me permitir entrar na sua vida e obrigada por me permitir compartilhar essa vitória com você!!! Eu te amo, Mel. De verdade. Que se foda se parecer lésbico - que o Fabrício saiba que eu te amo muito antes dele aparecer =P

Que Catarina herde a força histórica do nome e seja, à luz da imperatriz, defensora das artes e da cultura (mas sem ser uma déspota) - se bem que, filha de quem é, ela tem que se preocupar mais em estudar matemática mesmo =P

E SE PREPARA!!!! Vai chover dinossauros e Star Wars na sua casa em breve!


=***

6 de set. de 2015

"Ebony and Ivory"

Eram seis da tarde de um dia de chuva tímida, que mais queria ser notada do que molhar a vista. Decidi sair com uns amigos, tomar uma cerveja, fazer qualquer coisa. Todo mundo espera algo de um sábado à noite e eu precisava desse algo pra sentir que os últimos vinte e sete anos, mestrado, doutorado e especialização tinham valido a pena. Peguei um ônibus, depois o metrô e fui observando, estação após estação, o entra-e-sai das pessoas no vagão.

Era um vagão novo, bem iluminado, todo branco. Impecável mesmo para os padrões cariocas. Os bancos todos eram cinza e isso me chamou a atenção. Os trilhos eram cinza, as estações tinham alguma coisa pintada nas paredes, algumas placas, mas era basicamente tudo cinza. A lataria por fora do vagão era cinza-metálico com uma ou outra propaganda. Parecia uma minhoca de metal deslizando por baixo de uma cidade de tom igualmente frio. Mas ninguém mais parecia se importar muito com isso. 

No fim do vagão, eu sentei em um banco que ficava de frente para todos os outros. Vi quando uma senhora de semblante gentil, meia-idade, entrou com um livro em mãos: "Misto-quente", Charles Bukowski. Um jovem de uns vinte anos, no máximo, entrou sacudindo a cabeça e batendo os pés no ritmo de bateria. Levava fones de ouvido grandes como os de um DJ, mas o iPod shuffle era tão pequenino que criava um contraste engraçado. Entrou também um senhor já de idade, bem rabugento. Não falava com ninguém, mas aparentava insatisfação. Senti alguma empatia por aquele sentimento: tampouco estava gostando de estar ali, mas era um processo necessário, eu pensava. Todos saíram na estação Central. Outras pessoas, com outros objetos e fazendo outras coisas, sentaram em seus lugares. Uma menina tinha um livro de colorir mandalas, o outro garoto falava com alguém pelo celular, uma moça mal-arrumada parecia estar indo para lugar nenhum, a julgar pelo olhar desorientado e sem esperança. E quando um saía, outro vinha para seu lugar e o tomava. Assim, como se fosse mesmo apenas um pedaço de carne que se levantou e andou para fora. Como se não fosse alguém ali, com problemas, com angústias, com uma vida. Aquela minhoca subterrânea levava pessoas de um canto a outro, algumas vezes tão apertadas que entrar ou sair é um sufoco, mas de alguma maneira não havia qualquer forma de vida ali. Eram apenas poltronas que estavam disponíveis ou ocupadas.

Perdi a estação em que deveria saltar e acabei me atrasando para o encontro. Quando cheguei no pier em que havíamos marcado um luau, todos estavam a postos. Por algumas horas bebemos, brincamos e conversamos sobre a vida, os astros, religião, filosofia, piadas e política. Gosto dessas conversas, são sempre produtivas. Gosto do que me faz pensar. Mas talvez eu, com meu ego acadêmico e um artigo publicado em revista Qualis A, tenha pensado demais. Em pouco tempo discutindo política percebi que nossas intenções eram pró ou contra alguém. Comentei: "As ideias do candidato B são muito boas, mas a prática do seu partido é historicamente ruim. Já as ideias do candidato A são ruins a longo prazo, mas economicamente necessárias para um momento complexo. Então talvez se um candidato C surgisse com propostas de A+B..." e fui interrompida com "ficar em cima do muro não ajuda a população." Não se tratava de ficar em cima do muro. Política não é um contra o outro, mas uma ideia que melhor se adeque a um bem comum. Isso não aconteceu só em política, em tudo a resposta era um sim ou não: em arte você tem um belo ou um não belo como um consenso entre todos os que não entendem uma vírgula de arte, mas acham que podem falar a partir do que gostam (uma capinha de celular do Romero Britto). O certo é biscoito e não bolacha. A garota sensual que usa short curto e pede cigarro só pode estar se oferecendo sexualmente. O homem que aceita quer comê-la. Estados Unidos é melhor do que o Brasil. Somos todos Charlie. Eu não sou homofóbico, até tenho amigos gays, mas...

GUERNICA. Era assim que eu me sentia, em Guernica. Viver tem sido cada vez mais esse vazio por dentro, essa necessidade de fuga, porque nada mais parece ser sem que haja o contrário. Até em física existe essa dualidade: se uma matéria existe, é porque existe uma anti-matéria. Se um universo existe, é porque possivelmente existe outro, diferente. A vida é uma questão baseada em alteridade, mas não precisava ser. "Ebony and ivory live together in perfect harmony", por que não?

Tonta, desnorteada, cansada de fazer novamente o que eu não quis fazer, sentei para relaxar no pier e deixei meus pés se molharem com a água daquela lagoa. Estava morna apesar do frio que o vento trazia. Sabia que aquela água era tão imprópria para banho quanto Copacabana, senão mais, mas não me importava. Eu precisava apenas escorrer para dentro da natureza, sentir a pluralidade de efeitos e não apenas dois. Deitei no pier com os pés dentro da água e fiquei olhando as nuvens ao redor da Pedra da Gávea, da Rocinha... como seria olhar lá de cima pra baixo? De baixo pra cima é como negar tudo o que tem ao redor e ver apenas o céu - que naquele momento parecia mais São Paulo do que Rio - mas lá de cima deve ser exatamente o oposto: as cores das árvores, da lagoa, da praia e da areia em detrimento do cinza. A totalidade em detrimento do ego. Por um momento quis subir no topo de uma montanha e olhar pra baixo, mas eu acabaria pulando para tentar alcançar tudo isso que não se vê no dia-a-dia e cuja falta tem gritado em vermelho-sangue nos meus ouvidos.

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9 de jul. de 2015

"Metade do mundo eu não quero por perto e a outra metade eu lamento"

Dizem que o ser humano é social, que não dá pra viver sem a existência do outro. Concordo com isso. Acho que se eu posso comer hoje é porque muita gente participou do processo de fabricação e venda da comida. Minha casa não brotou do nada nem sou inventora de tudo que tenho nela. Alguém fez alguma coisa, outra pessoa empacotou, outra enviou pra transportadora... Acho certo que cada um tenha um papel na sociedade, só não entendo por que temos que ser comunicativos além do necessário.

Quando preciso estar rodeado de gente (uma praia, uma praça, um encontro de família - esses lugares que ainda não podem ser privatizados), gosto de exisir. Observo, escuto, analiso. Em família sou obrigado a comentar, responder e ser simpático, mas pouco falo de mim enquanto as pessoas, elas falam tanto de si. Isso é ser social? Parece uma consulta psicológica gratuita. "Eu vim pra comer, não pra ouvir sua ladainha", penso, mas faz parte do contrato social, então sorrio, opino, exemplifico pra servir de consolo (não sei se pra mim ou pro outro). Um profissional cobraria, e bem, pra fazer a mesma coisa. Com alguma sorte, alguma massagem erótica estaria inclusa no pacote. Eu li alguns livros de Freud, mas me dá preguiça ter que usar psicologia para assuntos tão fúteis e desinteressantes. Cito qualquer coisa de Sartre, bebo meu café e dou um jeito de sair. Às vezes mais parece que sou eu a pessoa no divã.

Mas, vá lá... pode ser esquisitice minha. Amigos servem pra isso também, deixar o ombro à altura sempre que necessário. Confesso que nem sempre lembro por que me procuraram ou o que conversamos, mas eles sempre me convidam pra sair, então deve dar certo... o bizarro é que não são apenas os amigos que são sociáveis. Parece que as pessoas têm essa coisa de falar de si até pra quem não conhecem. No ônibus, certa vez, mesmo quase todos os bancos estando vazios, uma senhora sentou ao meu lado. Só percebi isso quando ela interrompeu minha leitura (uma análise profunda sobre a formação e os problemas internos de grupos terroristas islâmicos) pra perguntar qualquer trivialidade. Acho que queria saber as horas. Deve ter déficit de atenção porque, ao que me pareceu, quando olhou pro relógio, ela viu a criança no banco da frente. Então, a senhora desandou a falar sobre sua neta (20 anos, membro do coral de uma igreja pequena, daquelas bem barulhentas; ensino médio completo - exceto por uma reprovação em física, "mas, também, um monte de conta difícil pra decorar, né?"). Alguma coisa naquela criança lembrou-a da artrose, diabetes e do bico de papagaio que tinha há algumas décadas - eu olhei pra mesma criança e, juro por deus, ela parecia saudável. 

Até aquele momento eu não havia falado nada além de "10 pras 4". Depois disso, comprei um carro. Os amigos do trabalho, então, pediram caronas para economizarem na passagem ("não são só 20 centavos" e agora, na verdade, já são quase 50), mas muitos pararam de falar comigo depois de algumas corridas. Pegávamos algum trânsito no caminho do centro para casa no horário de rush e eu sempre lhes pedia para que calassem a boca durante as quase 2h dentro do engarrafamento com ar-refrigerado. Eu sei que a inflação está absurda, que o Vasco foi vice (nem precisa de vidente pra saber) e que a crise na Grécia está alarmante. Sinceramente, esse tipo de conclusão eu tiro sozinho. O que eu não sei é o que o economista convidado pela BBC vai dizer sobre a análise que ele fez dos últimos 12 meses no continente Europeu; eu não sei o que o Estado Islâmico fez durante as 9h em que fiquei trancado num escritório trabalhando; eu não sei quais novidades a ciência tem sobre um novo planeta ou o projeto de vida em Marte - e quais deles parecem ou não viáveis do ponto de vista psicológico, econômico, bioquímico.

Eu gosto de pensar. Se for pra falar o óbvio, é melhor ver Jornal Nacional.

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7 de jul. de 2015

"Giving the Academy a rain check"

Acaboooou  \O/
Acabaram-se as noites mal dormidas, o sofrimento, o desespero, a vontade de vender água de coco na praia... c'est fini. Cabô. Já era. Agora é terminar uma e outra burocracia, fazer as malas e TIRAR FÉRIAS depois de quatro agonizantes anos 

A defesa da minha monografia, uma análise discursiva sobre o conceito de língua num texto do século XVI, foi aprovada com nota máxima. Isso foi uma surpresa, admito. De todo modo, foi muito gostoso ter esses seres do meu lado nesse dia estressante!






Tive a chance de mudar para o curso que eu originalmente queria, Relações Internacionais, e, pensando pelo lado financeiro, talvez tivesse sido uma boa opção. Mas não: saí de Letras na Uerj pra Letras na UFOP. Acho que poucos entenderão o gosto que eu tenho em identificar nuances em textos, entender de que forma eles foram elaborados, dissecar discursos e encontrar traços da identidade do sujeito em algumas poucas palavras escritas ou ditas, mas eu gosto. E eu vejo utilidade disso no dia-a-dia de diversas formas - inclusive nas relações internacionais. Pense nos discursos políticos: quem escreve? Com qual finalidade? O que deve ser dito ou não para alcançar o objetivo almejado? Pense nas traduções da ONU: o que seria dos tratados internacionais sem uma pessoa especialista em reconhecer o dito e o não dito, em identificar de que maneira um determinado conceito deve ser passado a uma cultura totalmente diferente daquela em que foi proferido. Pense na bíblia: como fazer com que tantos países, com culturas distintas, adotem um mesmo livro como referência religiosa? O trabalho do linguista é árduo e não se resume apenas a dar aulas.

Sei que a minha avó, por exemplo, gostaria que eu tivesse tido mais aptidão pros números. Desculpa, vó. Eu lembro do desespero que era entender o "português da matemática." Não me importa se Joãozinho tem 5 balas e quer dividir com 4 amigos; pra mim o importante é que ele não deixe ninguém desamparado. Não sei de que adianta saber com que velocidade um trem vai se chocar com outro se, no fim, muita gente vai morrer (aliás, sempre pensei que psicopatas gostam desse tipo de exercício - eu, particularmente, sempre pensei em como evitar o acidente iminente).

Talvez eu me volte mais pro business agora. Nunca escondi de ninguém que o que eu gosto mesmo é traduzir. Mas não descarto totalmente o mestrado acadêmico - afinal, quanto mais conhecimento, melhor. Eu só preciso de um pouco de férias, especialmente porque o último ano foi muito complicado. Mas o que eu preciso mesmo, e acho que tive nessa etapa final de curso, foi o reconhecimento da minha família e dos meus amigos mais próximos. Talvez só eu saiba o que me levou a fazer um curso da área de Humanas no Brasil, o que é entendido por muitos como um tratado de fome perpétua, mas saber que algumas pessoas entendem isso e confiam nas minhas escolhas é importante e reconfortante.


Por hora, descanso. 
E um martini com cerejas porque eu não sou obrigada!


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8 de jun. de 2015

"O amor é importante, vem dizer tudo de novo" (Roberto Carlos)

Uma mulher transsexual "pregada" na cruz, o comercial da Boticário, Fernanda Montenegro e Nathália Timberg... é. São tempos difíceis para ser qualquer coisa no Brasil. São tempos difíceis para ser, ponto. 

Temos tido liberdade de expressar o que quisermos, contanto que não ofendamos ninguém. Só não entendo isto: de que forma estamos ofendendo se pedimos paz e respeito?  O Brasil é o país com maior número de assassinatos a homossexuais. A cada 28h um gay/lésbica/trans/etc é morto, às vezes "com requinte de crueldade", segundo o Estado de Minas. "Requinte de crueldade" é algo muito sério, não é apenas puxar o gatilho ou cortar a garganta com uma faca. Esforçar-se para ser cruel é sentir prazer em matar. Sentir prazer em matar gays e fazer do Brasil o primeiro colocado neste ranking é, no mínimo, absurdo. E é exatamente isso que a trans da Parada Gay quis mostrar.

Fala-se muito de uma ditadura gay. Não consigo imaginar um crossdresser matando uma hétero porque ela não faz sexo oral em mulher. Não encontrei ainda uma travesti, no alto do seu scarpin vermelho de verniz, mandando um hétero dar a bunda pra não ser preso, torturado ou morto. Não consigo mesmo imaginar de que forma um homem ou uma mulher transsexual vai conseguir impedir a relação sexual com fins reprodutivos a ponto de exterminar a espécie humana. Mas eu vejo gente mais preocupada com um comercial de perfume do que com a fome nas ruas. Vejo gente boicotando uma novela, mas não vejo as mesmas pessoas se preocupando com roupas e objetos comprados com suor do trabalho escravo (de crianças e adultos, no Brasil e no mundo). Eu vejo uma resposta violenta para coibir qualquer exposição do tema da homossexualidade. E quando procuro sobre ditadura na internet, vejo coisas horríveis como a Itália de Mussolini, a Alemanha nazista, o resultado do Relatório da Verdade sobre crimes contra os direitos humanos na ditadura militar brasileira... e não vejo de que forma nós estamos deliberadamente causando caos, tortura e mortes à família tradicional brasileira.

Estava conversando com uns amigos (gays) sobre o problema de marcá-los em uma rede social citando o Boticário. Alegaram perda de influência política na cidade, perda de clientes. Ainda existe um preconceito viral contra alguém que não gosta do que a maioria das pessoas gosta (Jesus também foi assassinado pela minoria, devemos lembrar). Ainda tem gente que fica sem emprego ou é excluída de uma parcela da sociedade porque é gay. Estamos no século XXI, enviamos o homem à lua, descobrimos água em Marte, falamos com uma pessoa no outro lado do mundo em tempo real, mas ainda carregamos uma mentalidade medieval.

Eu tenho muito medo de tudo isso. Medo porque a ditadura que tanto dizem que ditamos não é nossa. Pedimos apenas paz, liberdade para ser, para falar, para andar de mãos dadas na rua. Imploramos que vocês parem de querer que sejamos como vocês. Por que temos que ser iguais?  Por que temos que ter o mesmo deus, a mesma crença? Por que não podemos ser felizes da forma que somos felizes? Nos forçar a isso tudo é ditadura, da mesma forma como impedir que um comercial que só mostra gente se abraçando seja divulgado é indício de homofobia. Viviany Beleboni, a trans da parada gay de SP, está recebendo ameaças de morte! Isso não é homofobia? Pedimos apenas que nosso direito constitucional de viver e nossas crenças sejam respeitados assim como respeitamos a quem nos tem ofendido. Ser gay não é errado. Somos seres humanos. É desumano tratar-nos como menos do que isso - e, até onde me lembre, Jesus pregava o amor a todos.


No mais, eu fico triste. Não só por nós gay, não só por nós sapatão... Eu fico triste com a sociedade brasileira, que dá muito mais importância ao que cada um faz com o próprio cu do que com corrupção, fome e miséria.



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8 de mai. de 2015

"Preciso de um tempo maior (...) e do tamanho do que a alma sente"

Quem pensa que aquela época dos 18 anos - reprovação em química, cobrança da família por um diploma e o terror do vestibular - era o começo do resto da vida não sabe o que é chegar aos 25 com diploma de graduação. E eu ainda nem terminei a monografia.

É aterrorizante sair da faculdade. Primeiro, porque é a primeira coisa genuinamente sua que foi concluída. Você decidiu fazer aquilo, você passou por todas as dificuldades e você está concluindo. É diferente da escola, sabe? Mandaram que você fosse durante anos. Mas, em geral, ninguém te obrigou a ir pra faculdade.

Depois, ser graduado é ser desempregado. Na faculdade há bolsa de monitoria, de extensão, de comida... enfim. Você não ganha suficiente para fazer imposto de renda (agradeça por isso! Os impostos estão cada vez mais abusivos), mas aquela é a sua pequena fortuna renovada a cada seis meses ou doze e você sabe que de fome não morre. Sair da faculdade é dar a sua fortuna todinha para outra pessoa. Eu não sei quanto a vocês, mas não sou nenhum Bill Gates, o que significa que perder uma fortuna de R$300 é, sim, um desespero.

Por fim, ser graduado é ter sempre um norte. Você faz as matérias num período porque precisa fazer as do próximo, e do próximo, e do próximo até, finalmente, chegar o momento da graduação. Você precisa do seu diploma, então sua meta é muito clara. Quando você sai da faculdade a sua meta é ganhar dinheiro. Percebe a mudança de foco? Pode ser que seu sonho seja ir pro Japão, estudar libras em Santa Catarina ou então fazer aquele curso de teatro caríssimo na Tailândia. Tudo envolve dinheiro. O diploma não envolve dinheiro. Só que pra fazer tudo o que você quer, retornamos pro ponto anterior: sem a sua fortuna, de que maneira fazer o que você quer?

É claro que podemos sempre arranjar um emprego. Bem... isso também depende. Uma amiga minha conseguiu um estágio super bacana na área de engenharia de uma mineradora hoje, sexta-feira, e precisa entregar a documentação, já assinada pelo professor, na segunda. Acontece que a chefe do RH, que estava cuidando da papelada, acaba de ser demitida e nem sabe pra onde minha amiga deve enviar a documentação.

As previsões econômicas e laborais pro Brasil não andam das melhores. Demissões em série andam fazendo os alugueis reduzirem em muitas cidades do interior enquanto os valores nas capitais aumentam assustadoramente. É exigido do candidato a um novo emprego uma experiência que ele muitas vezes não tem e, pra isso, cada vez mais as pessoas procuram cursos de especialização antes ou após o curso universitário. Muitos precisam trabalhar para custear isso - seja com empregos formais, seja matriculando-se nos cursos de mestrado e doutorado. Há muito a pós-graduação virou fonte de renda para recém-formados que não sabem direito para onde correr e os empregos formais (ou concursos públicos) são opções para quem não pretende ter títulos acadêmicos. 

Quando ter um título acadêmico é boa ideia? Ficar mais 2 ou 6 anos estudando com qual objetivo? Porque ao fim da pós-graduação, seja por ironia, seja por excesso de pessoal, os estudantes não saem empregados. Não é como um concurso para a carreira diplomática. Não será melhor entrar logo no mercado de trabalho e garantir um lugar antes que outros o façam? Aos 25 anos o mercado te exige muito mais do que aos 18 e a proximidade com os 30 parece fazer com que tudo ganhe mais peso. Algumas atitudes precisam ser repensadas, a forma de se vestir deve ser adequada e é esperado que você tenha um objetivo na vida. Ganhar dinheiro não parece ser um objetivo concreto porque parte-se do pressuposto de que num mundo capitalista esse é o alter-ego de todos. Na Academia o objetivo é concluir sua pesquisa - com bolsa, sempre que possível. Quase uma metonímia, parece mais palpável, menos objetivo, do que simplesmente ganhar dinheiro. 


Não importa qual seja a sua decisão, o fato é que pegar o diploma de graduação tem implicações assustadoras para o formando. A primeira delas é o fim de um ciclo, que por trazer o desconhecido em sua natureza já aterroriza. A segunda implicação é a vasta gama de locais em que se possa desempenhar a função para a qual estudou durante anos. 

Da mesma forma como um projeto de mestrado ou de doutorado, criado (teoricamente) exclusivamente pelo candidato, a vida profissional também deve ser uma escolha exclusiva da pessoa num oceano de ideias. A vida na universidade é mais fácil porque te dá tudo mastigado para desenvolver, como uma mãe-passarinho que alimenta o filhote com uma papinha já semi-mastigada para que ele possa, por si, terminar de fazer a digestão. A vida profissional é a mãe deixando o filhote cair do ninho pra aprender a voar. Ele vai se machucar algumas vezes; faz parte. No fim, ele aprenderá.

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31 de mar. de 2015

"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer"

Pra além de ser o dia da mentira, amanhã é o dia do Golpe Militar de 1964, que eu não explicarei aqui porque parto do princípio de que você, leitor, sabe um básico de história do Brasil.

Fico assustada com a repercussão disso atualmente devido a toda essa crise política que anda efervescendo, mas também me assusta que muitos nesse país não tenham tido aulas de história (e nem vem falando do PT porque, se você tem mais de 20 anos, sua burrice também é culpa do governo anterior). Adianto também que fui pró-PT nas eleições apenas porque a opção era o Aécio e eu moro em MG, sei do que falo sobre ele.



Ouvi de um militar aposentado que "militar não foi feito para governar, mas para servir." A intervenção militar no país está detalhadamente documentada no relatório da Comissão da Verdade que tratou, entre outros, dos abusos cometidos pelos fardados e, até mesmo, da relação direta entre governantes e assassinatos.

A presidente do nosso país foi torturada pelo regime que, hoje, tem, pelo menos, 36 mil adeptos. Ficou um tempo presa, teve seu corpo à mercê de carrascos, sofreu traumas psicológicos irreversíveis em prol de uma pátria democrática. Assim como ela, muitos homens e mulheres passaram por torturas não menos piores do que as cometidas pela Santa Inquisição. Muitos morreram - por causa dos ferimentos, dos choques ou da sua luta para que seus filhos e netos tivessem um futuro decente. Se doi levar um tiro ou ter um cacetete de policial acertando sua cara com toda a força que a gravidade pode aumentar, imagine levar uma descarga elétrica na genitália, ser estuprado (homem ou mulher) com objetos cortantes, ter o corpo mutilado sem qualquer anestesia. 

Nem todos os militares são adeptos do abuso de poder, mas eles são tão minoria que sequer tiveram voz durante o regime.

Eu fui a favor da Dilma em 2014? Sim.
Eu me arrependo? Não.
Entendo que a situação do país está péssima, mas vocês são ignorantes? Não foi o PT nem o PMDB que criou todos os escândalos de corrupção. Eles vêm de muito tempo antes. E não falo só do PSDB! Isso vem antes da democracia, antes da ditadura, mas, ao longo do tempo, isso só foi aumentando. A forma de fazer política no Brasil é completamente baseada em ajudas financeiras não-contabilizadas. "Mas no regime militar isso não existia!" e vida própria também não. Nada existe em um regime governado por militares - nada além da obediência cega ou consequências.

Titia vai desenhar pra você entender melhor: ou dá, ou desce. É assim que a ditadura militar funcionou no Brasil, é assim que ela vai funcionar em qualquer época e em qualquer lugar.

Arrisco dizer que o governo dos últimos 12 anos foi o melhor em termos de transparência porque mostrou TUDO O QUE VOCÊS NÃO SABIAM. Mostrou a corrupção que é esse país e que, não importa o que se faça, ela não vai mudar. Haverá impunidade, haverá caixa 2, haverá crise hídrica por falta de recursos financeiros (porque tudo foi parar na Suíça). Mas concordo que é um absurdo ver tudo isso na TV, num sofá, comendo pizza num domingo à noite - o que me leva ao meu próximo ponto.

A luta pela corrupção, entretanto, deve começar a partir da sociedade. Não adianta falar que é um absurdo o que aconteceu com a Petrobras, o mensalão tucano, o escândalo do Sivam e os ralos do DNER (lembra desses, coxinha?? Época FHC) se você fura fila, recebe bolsa da faculdade em nome de outra pessoa porque não pode acumular, pega a grana do Ciências sem Fronteiras e viaja em vez de estudar, presta serviços sem nota fiscal, trabalha sem carteira assinada, compra carro e coloca em nome de outra pessoa, aumenta o valor que de fato precisa para receber algo "porque a crise tá mals, né",  diminui a velocidade ao passar por radares. Pequenas corrupções do dia-a-dia também devem ser combatidas. 


Eu estou contente com tudo o que está acontecendo? Não.
Eu quero colocar a mão na massa pra mudar? Sim.
Já sabemos que regime autoritário é, como o termo muito apropriado deixa transparecer, pouco ou nada aberto a assuntos do povo. Se há dúvidas ainda, basta ler livros de história, o relatório da Comissão da Verdade e ver exemplos de outros regimes autoritários (Alemanha nazista foi legal?). Mas a democracia como é feita atualmente deixa muito a desejar e permite, por sua própria essência, a corrupção. Pra que tantos ministérios? Pra que tantas secretarias? Fala-se muito hoje sobre reforma política. E você acha mesmo que os atuais governantes e candidatos a governantes vão aceitar assim, DE MÃO BEIJADA, a redução da quantidade de membros nas câmaras, no congresso, nas secretarias? A política no Brasil é uma pirâmide: se você tirar alguém da base, o resto vai cair. Se a reforma política for feita pelos governantes, a quem vocês pensam que isso vai favorecer? Se forem retirados integrantes da pirâmide, de que forma eles serão realocados para não resultar em um novo escândalo de corrupção?


Por muito menos, a Revolução Francesa aconteceu. Não será hora de permitir que a história nos ensine um pouco mais sobre como ser uma nação pra além de um simples Estado (explicando: que tal fazer um governo que favoreça o povo em vez de criar bodes que aceitem as ordens de um qualquer)?



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